Islamização da Pérsia


Para disseminar o Islã, Maomé e, principalmente, seus sucessores agregaram multidões de fieis e se lançaram à conquista de novos territórios, com o objetivo de fundar um império muçulmano. Os persas resistiram à invasão árabe o quanto puderam, mas acabaram sucumbido e assimilando a nova religião, apesar de adotarem uma visão própria, mesclando algumas interpretações baseadas no zoroastrismo. Por esse e outros motivos se pode dizer que os iranianos foram islamizados, mas nunca arabizados.


Origens do Império Islâmico

A Península Arábica era formada por vários reinos pequenos e tribos nômades até ser unificada por Maomé, através da religião islâmica. Após a sua morte, como não tinha descendentes homens, houve disputas para saber quem seria seu sucessor. Assume como primeiro califa, Abu Baker (632 – 634), governo curto, foi sucedido por Omar I (634 – 644), que conquistou e ampliou a área dominada pelo Islã, já que tanto o Império Persa quanto o Império Bizantino, que viviam em permanente disputa por territórios, encontravam-se enfraquecidos.
Com a morte de Omar I, assume o poder Uthman ibn Affan (644 – 656), membro da aristocracia comercial de Meca, eleito por um conselho. Medidas impopulares, nepotismo, parada das atividades expansionistas marcaram seu califado, levando a muitos opositores.  Morto o terceiro califa, Ali ibn Abi Talib (656 – 661), primo de Maomé toma para si o posto de quarto califa. Por não agradar a todos, enfrentou resistências e batalhas, até ser morto.

Após a morte de Ali surgem dissidências religiosas no Islã. Transformado por seus seguidores em figura semi-divina, como também seus descendentes (filhos deste com Fátima, filha de Maomé). Surge uma corrente do islamismo - xiismo - que prega caber apenas aos descendentes diretos de Ali, naturalmente divinizado, o califado. Findo o período dos 4 Califas, chega ao poder a dinastia Omíada.

Foi durante o domínio dos Omíadas que o império Islâmico atingiu seu apogeu, territorial e militar. O Estado passou a ser laico, isto é, o califa deixou de ser o líder religioso (imã), tendo atribuições apenas nos aspectos econômicos, políticos, social e militar. Foi na verdade uma vitória dos grupos mercantis sobre os grupos religiosos responsáveis pelo surgimento e manutenção do Império através da difusão de uma fé. Nesse período se estabeleceu a hereditariedade do título de califa. Essa dinastia se prolongou até metade do século 8.

   Expansão durante a época de Maomé, 622-632
   Expansão durante o Califado dos 4 Califas 632-661
   Expansão durante o Califado Omíada, 661-750

A dinastia Omíada se destacou pela profissionalização do Estado, prosperando na administração pública e por dominar as rotas comerciais do Oriente. Foram muçulmanos tradicionalistas e observadores do Alcorão e dos costumes Árabes (as Sunnas de Maomé, daí serem conhecidos como Sunitas).  Desse período em diante se estabeleceu a principal divisão entre os muçulmanos, os sunitas e os xiitas (ligados apenas ao Alcorão), que além das divergências religiosas, as tinham também nas questões sucessórias. Os sunitas acreditavam que a eleição dos chefes deveria ser livre. Os xiitas, que precisavam ser descendentes de Ali.

Durante todo o período de ocupação do território persa houve conflitos e tensões. Os iranianos não aceitavam o domínio árabe até que derrubaram o Califado Omíada, substituindo-o pela dinastia Abássida.

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Durante essa dinastia foi restabelecida a teocracia original e foram produzidos os legados mais importantes do mundo árabe, como obras literárias, grandes mesquitas, túmulos majestosos e tradução de antigas obras gregas. A hegemonia dos Abássidas durou efetivamente por cerca de um século, apesar de em reinos fragmentados ter se prolongado mais. Seguiu-se um curto domínio da dinastia iraniana Buyida, que resgatou a identidade persa. Porém no século 11 a região foi novamente invadida por foças estrangeiras, sunitas de etnia turca, os Seljúcidas. O seu lider foi nomeado sultão, separando o poder temporal do religioso.

A expansão seljúcida chega até a Turquia, mas a partir do século 13, essa dinastia é aniquilada pelos mongóis, que destruíram cidades e fragmentaram o território iraniano, posteriormente transformados em pequenos estados liderados pela dinastia Timúrida (século 15). 
Meados do século 15, em um ambiente ainda traumatizado pela barbárie protagonizada pelos mongóis, surgiram ordens religiosas que tentavam trazer esperança à população. Teve grande destaque a Safaviya, que adotava o islã sufi, uma corrente mística. Fundindo essa ideologia com o islã xiita, em 1501, o jovem Ismail formou um exército e conquistou os pequenos estados, dando início à dinastia Safávida, o último e grande império iraniano, uma teocracia, onde o líder se via como um grande guia religioso e que pregava o martírio no campo de batalha como o passaporte direto para o paraíso. Nessa época houve grande perseguição aos sunitas.

Essa dinastia cujo lider adotou o título de xá, deu grande importância às artes e à arquitetura persas, transformando Isfahan, capital e centro dessa renascença, um dos lugares mais belos do Oriente Médio. O auge do império se deu no governo do xá Abbas, no século 17, que estendeu seu domínio do Iraque ao Uzbequistão. Apesar da vida curta, foi nessa época que houve a conversão generalizada dos persas ao xiismo e a solidificação do nacionalismo persa, que permanece até os dias atuais.
Com o domínio da região, acumularam-se inimigos e os enfrentamentos são inevitáveis com tribos curdas e o poderoso e vizinho Império Turco-Otomano, representante maior do islã sunita. Esses distúrbios aliados aos desmandos dos últimos governantes, considerados incompetentes e impuros pelas lideranças religiosas xiitas, levaram ao enfraquecimento do império, que facilmente foi invadido.

Coube ao soldado turcomano Nader libertar o trono safávida dos afegãos, porém achou-se mais apto que os velhos dirigentes e tomou o poder, declarando-se o novo xá. Promoveu um governo violento e após a sua morte houve um período de instabilidade, superada com instalação de uma nova dinastia, a Zand, fundada por Karim Khan, que transferiu a capital para Shiraz. Foi um período de relativa paz e crescimento econômico.
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No final do século 18 a dinastia Zand foi substituída pela Qajar, que afundou o Irã economicamente, à medida que se endividava e torrava fortunas com luxo e pompa, acabando por vender patrimônio e recursos econômicos nacionais a russos e britânicos. Fragilizada a dinastia sucumbiu sob pressão popular, mas já tinha vendido o direito à exploração do petróleo aos ingleses.
Nesse contexto e insuflada pelos clérigos a população mostrava sua ojeriza contra os Qajar, resultando na Revolução Constitucional de 1906 e elaboração de uma Constituição, que limitava o poder real, além de prever um regime secular. No entanto não seria dessa vez que os iranianos teriam liberdade e independência. A Russia e a Inglaterra travavam uma disputa implacável pelo domínio da região. Saiu vitoriosa essa última ao fomentar um golpe militar (1921) que derrubou o regime constitucional da Pérsia e colocou no poder o general Reza Khan como primeiro ministro. Quatro anos após estava extinta a dinastia Qajar e o Parlamento o "elegeu" monarca  adotando o título xá Reza Pahlavi.
O novo xá procurou, o máximo que pode, ocidentalizar o país. Declarou guerra aos clérigos e às tradições religiosas. Surgiram escolas laicas, abolindo o Alcorão como única fonte de conhecimento. Incentivou uma maior participação da mulher em todas as esferas de trabalho. Qualquer protesto contrário às suas medidas eram respondidos à bala. Foi uma ditadura brutal amparada pela modernização e por profundas mudanças no âmbito econômico e social. A troca do nome do país para Irã foi decisão dele, defendendo a ideia  de que muitos iranianos não eram persas.

Embora senhor absoluto no seu país, o xá era vulnerável às pressões externas. Ao se aproximar da Alemanha nazista e não permitir que o país fosse usado como base logística na Segunda Guerra Mundial, em 1941, russos e britânicos o depuseram e colocaram no seu lugar o primogênito Mohammad Reza Pahlavi, que continuou influenciado pelas potências ocidentais, com o objetivo de modernizar e ocidentalizar cada vez mais o Irã, além de minar a influência dos clérigos.
Início dos anos 50 (seculo 20), o nacionalista e primeiro ministro Mohammad Mossadegh querendo por fim a supremacia britânica na exploração do petróleo iraniano, nacionalizou a Anglo Oil Company, o que lhe custou o cargo, num golpe insuflado pela Inglaterra e EUA. A partir daí, com mais fôlego, o xã  tratou de eliminar brutalmente os seus opositores (comunistas, religiosos, nacionalistas), além de cercar sua corte por ocidentais, manter uma vida social luxuosa, extravagante e um governo roído pela corrupção. A insatisfação ganhou as ruas e ecou nos meios religiosos. Estavam disponíveis os ingredientes para as mudanças que vieram a seguir.





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