Olinda: um passeio pelo Centro Histórico


"Ó linda situação para se construir uma vila!"
Teria sido a partir dessa frase que surgiu o nome da pequena aldeia chamada Marim e habitada pelos índios Caetés. O autor? Duarte Coelho Pereira, que em 1535 veio de Portugal para assumir a  capitania, estabelecendo-se no ponto mais alto e fundando Olinda. O local, estrategicamente protegido, em um ponto alto rodeado pelo mar e com um porto natural formado pelos arrecifes, tornava-se difícil de ser invadido.


No entanto, entre 1630 e 1654, Olinda foi atacada e ocupada pelos holandeses, que incendiaram a cidade e se fixaram no porto da cidade, o Recife. 
Após a expulsão dos holandeses, a cidade foi reconstruída aos poucos e suas igrejas e monumentos, restaurados. Ficou como capital de Pernambuco até 1837, quando perde esse título para Recife.

Em virtude de sua beleza natural e pelo rico passado histórico, em 1982 é declarada Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco. Hoje sedia um dos maiores carnavais do mundo, quando revive a grandeza do passado, ao som do frevo e do maracatu que ecoam por suas estreitas e íngremes ladeiras.
Os portugueses deixaram em Olinda um dos maiores patrimônios histórico e arquitetônico do país. Tendo como um dos principais conjuntos dessa herança, as igrejas, conventos e casarios. Neste roteiro que fiz em um dia pelo Centro Histórico, parte desse rico patrimônio foi visitado. Algumas igrejas ficam abertas à visitação, outras só permitem a entrada durante os ofícios religiosos.

Um Roteiro a Pé 

Cheguei em Olinda proveniente do Recife e iniciei minha visita pela parte baixa da cidade, no local onde se localiza o Mercado Eufrásio Barbosa. Era ali que funcionava a Casa da Alfândega Real, que, no século 17, era ponto de venda dos produtos europeus. Tecidos finos ficavam expostos em varas de madeira que possuíam as pontas douradas, daí o nome como o local ficou conhecido até hoje: Varadouro.
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Do mercado entrei à direita, na Rua 15 de Novembro, onde se encontram casario antigo e a Igreja de São Sebastião. Subindo, na primeira rua à direita, está o pátio do Mosteiro de São Bento, cuja igreja pode ser visitada. Construído entre o século 16 e 18, foi o segundo mosteiro beneditino no país, não escapou do incêndio provocado pelos holandeses na cidade em 1631.

A Igreja de São Bento possui torre sineira coroada por uma cúpula. Seu interior é de nave única. No altar-mor, o retabulo de influência barroca (14 metros) é todo em madeira (cedro) revestido em ouro (século 18). Esse altar foi desmontado e transportado para Nova York, onde ficou em exposição no Museu Guggenheim em 2002.
Há três grandes lampadários em prata que pendem do teto, este, ricamente pintado. Nas laterais da igreja há santos em madeira policromada e dourada dos séculos 17 e 18, dispostos em altares que têm ao lado pilastras com pintura marmorizada.
As portas em jacarandá são almofadadas, com detalhes em alto relevo. As janelas, na altura do coro, são emolduradas com pedras de arenito e há um belo óculo colonial entre elas. O frontispício exibe o brasão da Ordem de São Bento, também esculpido em pedra.
Mais a frente se pode dobrar à esquerda e pela R. 13 de Maio chegar ao Museu de Arte Contemporânea (também há uma escadaria que dá acesso).
Continuando pela São Bento do lado direito está o Museu do Mamulengo e logo a rua passa a se chamar Bernardo Vieira de Melo, onde está o Mercado da Ribeira, que tem a sua frente ruínas do antigo Senado de Olinda, onde os governantes se reuniam para comandar Pernambuco. Ali está escrito: "Aqui, em 10 de novembro de 1710, Bernardo Vieira de Melo deu o primeiro grito em favor da fundação da república entre nós".
O Mercado da Ribeira Em estilo colonial português foi construído em 1693 para servir como mercado de carne, peixe, farinha e escravos. Atualmente abriga lojas de artesanato. No seu pátio, no período do carnaval, ocorre o encontro de blocos e caboclinhos.
Continuei meu passeio, descendo a R. Bernardo Vieira de Melo em direção aos 4 Cantos (encontro dessa rua com as ruas do Amparo, Prudente de Moraes e Ladeira da Misericórdia). Um dos mais famosos pontos de concentração do carnaval. 
Segui pela  R. do Amparo, que se destaca pelo colorido e influência colonial das suas construções, além de ser o reduto de ateliês de vários artistas, até chegar no Largo, onde se encontra a Igreja do Amparo, construída em inicio do século 17, foi reconstruída em 1644, após sua destruição no grande incêndio de Olinda.  Apresenta uma fachada em estilo barroco, com frontispício em volutas encimada por cruz.
De frente para a Igreja do Amparo e com acesso pela R. São João está a Igreja de São João Batista dos Militares, provavelmente construída no final do século 16, em estilo maneirista. Uma das poucas que escapou da fúria incendiária dos holandeses.
Pela lateral esquerda da Igreja do Amparo (para quem está de frente para ela), sobe-se a rua Saldanha Marinho para chegar ao alto da Ladeira da Misericórdia, onde está a Igreja N. S. da Misericórdia, que foi erguida em 1540 e reconstruída em 1655, após o incêndio. Junto está a Academia Santa Gertrudes, no local onde existiu o hospital da primeira Santa Casa do país. A Igreja tem uma nave central, com três altares bem decorados em estilo barroco. Ha um painel de azulejos do século 18.
Na parede externa dessa Igreja há uma antiga inscrição homenageando heróis da resistência pernambucana à ocupação holandesa.  
O Pátio a sua frente é considerado um dos mirantes mais bonitos de Olinda.
À esquerda da Igreja da Misericórdia, sigo pela R. Bispo Coutinho passando por um pátio onde se encontra o Convento da Conceição das Doroteias Descalças, construído no século 16, também incendiado pelos holandeses e depois reconstruído por Fernandes Vieira. Depois de algum tempo a sua entrada, consigo permissão para entrar.
O teto da Igreja possui importantes medalhões e pinturas da Virgem Maria, entre as quais, a pintura da Virgem amamentando o Menino Jesus.  No exterior, a arquitetura barroca se destaca no frontão que exibe volutas e pináculos. O Convento tem um interior muito bonito e um grande pátio interno. 
Dali se vê o Horto Del Rey, com grande variedade de espécies. Ao fundo o famoso Farol de Olinda, com 42 metros de altura e listras horizontais, foi construído em 1941 e o primeiro farol a ter elevador no Brasil.
Logo a seguir, o Museu de Arte Sacra de Olinda, que está instalado em edifício do século 17 e onde se encontra um acervo de arte religiosa e sacra produzida em Pernambuco desde o século 16 até o presente. Ali se destacam as peças produzidas em barro com características regionais.
Agora já me encontro na parte mais famosa do Centro Histórico, a Praça da Sé. É hora de descansar o corpo apreciando a bela paisagem da região mais abaixo da cidade, onde se veem os telhados do casario, as torres das igrejas, palmeiras, coqueiros, além do verde-azulado do Oceano Atlântico ao fundo e a região portuária do Recife. 
Aproveitei para comer a famosa tapioca de Olinda. Também se pode comprar nas lojinhas ou na feirinha, o  famoso artesanato pernambucano. 
Além da tapioca, do queijo de coalho assado, água de coco, você também pode se deparar com uma dupla de repentista, tudo isso e muito mais tem no Alto da Sé.
Na praça também se encontra o Observatório Astronômico e do outro lado, o prédio da Caixa D'Água (construção modernista de 1937), com o elevador panorâmico, de onde se tem um belo visual do entorno.
Voltada para a praça, a Catedral da Sé, o próximo ponto a ser visitado. A Matriz do São Salvador do Mundo ou Catedral da Sé foi erguida originalmente em taipa e madeira (1540), passando a ser de alvenaria com a reforma em 1584.
Ao longo do tempo sofreu várias reformas e teve sua fachada alterada. A atual é de 1974, restaurando o estilo colonial renascentista primitivo. As três portas em madeira são almofadadas, sendo a principal ladeada por colunas jônicas. O frontispício é ornado com óculo colonial. 

Seu interior é dividido em três naves com arcadas em colunas de pedra. Na nave lateral há um belo altar barroco com talhas em volutas e pintura com douramento e policromia. Durante a invasão holandesa foi usada como templo protestante e, posteriormente, incendiada, ao serem expulsos os invasores.
Descendo a ladeira da R. do Bispo, à esquerda para quem está de frente para a Catedral, situado na parte mais alta da cidade, está o Seminário de Olinda, a maior representação da arquitetura jesuítica no Brasil. Em 1551 teve início a construção que só foi concluída em 1568. Não escapando ao incêndio da cidade, foi restaurado em 1660. Do conjunto arquitetônico também faz parte a Capela de Nossa Senhora das Graças, doação de Duarte Coelho ao padre jesuíta Antônio Pires.

Foto divulgação: Prefeitura da Cidade de Olinda

Continuando pela R. do Bispo, dobrei à direita, na R. São Francisco. No topo da ladeira se encontra o primeiro estabelecimento franciscano no Brasil, o Convento de São Francisco. O conjunto, que teve sua construção iniciada em 1585, é formado pela Igreja de Nossa Senhora das Neves, Capela de São Roque, o claustro e a sacristia. 

Em frente ao convento, o grande cruzeiro trabalhado em pedras retiradas dos arrecifes.


O que encanta nesse conjunto é a série de painéis de azulejos com temas que retratam a vida e a morte de São Francisco. Mas há também outros conjuntos com temas profanos, belos, mas necessitando de uma melhor conservação.

Continuando a descida pela R. São Francisco, cheguei à Praça do Carmo e sua vizinha, Praça da Abolição (da Preguiça). Ali se encontra a Igreja de Santo Antônio do Carmo, onde finalizei o meu passeio.
O templo  do final do século 16, é o primeiro da Ordem do Carmo nas Américas, em 2012 foi reaberto ao público após uma reforma e restauração que durou 17 anos. Além dos bonitos altares, pode se observar, em alguns pontos do teto, a pintura original que foi preservada.


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