Quixadá


Do tupi-guarani se originou a palavra Quixadá, que para os estudiosos da linguagem significa “pedra de ponta curvada”. Para os antigos a região já era conhecida como “Curral de Pedra”. E não é para menos, pois a cidade está encravada em um vale, onde montanhas rochosas brotam abruptamente da terra. Ao longo dos séculos, a água, os ventos e as intempéries foram esculpindo essas rochas, dando-lhes formatos curiosos. Com alguma imaginação, pode-se visualizar nos monolitos (ou monólitos) imagens de animais.



24/12/2009       No Sertão, além de fé, pratica-se voo livre

...Quixadá era para mim apenas um nome guardado nas lembranças da infância sobre os períodos de seca que assolavam o Ceará. Da sua vizinha cidade, Quixeramobim, lembrava-me vagamente de uma música do Chico Buarque tocada nos rádios, na década de 70. Mas, foi com surpresa que tomei conhecimento de que, em plena caatinga, elas reúnem condições climáticas adequadas para a prática do voo livre, como ausência de chuvas, ventos fortes e massas de ar que mantêm os praticantes de asa delta e parapente até 3.500 metros de altitude por muito tempo, permitindo-lhes chegar e aterrissar no estado vizinho, Piauí.
Do alto da Serra do Urucum os aventureiros decolam para viagens que chegam a durar sete horas. Por isso, em 1996, Quixadá passou a sediar um campeonato mundial de voo livre na modalidade longas distâncias, período em que à paisagem da caatinga espinhosa e dos monólitos rochosos é acrescentado um céu coberto de asas coloridas.
Rampa para salto de voo livre

...Eram cinco horas da manhã quando abri a porta da varanda do quarto em que estava hospedada e dei de cara com uma belíssima imagem do sol despontando no horizonte em meio a um colorido exuberante que ia do rosa ao violeta. Armei o tripé e pus-me a fotografar aquele presente da natureza. Em seguida aguardei o horário do café da manhã, colocando em dia os relatos da viagem.
...A ausência de som era tamanha que dava a impressão de estar ouvindo o próprio “som do silêncio”.
O hotel, com aparência rústica e lembrando uma grande casa de fazenda, tinha as refeições servidas num amplo salão aberto, ao lado da recepção. Numa parede da entrada, um grande painel fixado, onde se tinha a imagem de todas as trilhas dos arredores indicando a distância, os pontos de interesse e o grau de dificuldade.

O que fazer?

  • Conhecer o entorno. Então parti em um taxi, pois o hotel Hotel Pedra dos Ventos fica distante 18 km da cidade.
Após alguns quilômetros por caminho de terra, encontramos a estrada de asfalto que dá acesso ao Santuário Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão. A subida é íngreme e fui surpreendida por estátuas de tamanho natural que retratam as sete estações da Paixão e Ressurreição de Cristo.
No topo da Serra do Urucum está localizado o Santuário, construção moderna que tem nas suas paredes laterais pequenas bandeiras representando os países americanos. 
À direita da sua entrada, um Cristo Crucificado e à esquerda, em madeira e tamanho natural, a representação de uma singela carpintaria, com Jesus menino, José e Maria. O local ainda conta com uma estrutura completa de restaurante, casa de repouso e auditório para reuniões. 
De lá nos dirigimos para o local onde se encontra uma rampa destinada à prática de voo livre. O visual é soberbo! Permite-nos observar as variadas formações rochosas que se distribuem por toda a região.
Retornamos pela rodovia que dá acesso à Quixadá, onde a 5 km do seu centro comercial chegamos ao Açude do Cedro. Este reservatório começou a ser construído por D. Pedro II em 1873, porém só foi inaugurado em 1906, pelo então presidente Afonso Pena. 
Tanto o robusto paredão, construído no local com pedras lapidadas artesanalmente, provavelmente obra de escravos, para represar as águas plácidas há tantos e longínquos anos, como os magníficos detalhes da grade de proteção fazem com que este açude, que é o mais antigo do Brasil, seja exaltado pela sua beleza e valor histórico. Tombado como Patrimônio Histórico da Humanidade, tem capacidade para mais de 125.000 000 m³ e profundidade máxima de 16 metros.
Próximo ao Açude está um dos mais conhecidos monólitos existentes no município, tendo seu nome derivado de sua curiosa forma, é a Pedra da galinha Choca. Esta área é muito utilizada para se praticar rappel e se fazer trilhas pelas pedras aí existentes, inclusive até o topo da pedra da Galinha, que é a mais alta da região.
          

  • Fazendo trilhas pelo sertão cearense
O hotel ocupa uma área de 122 hectares, possui 4 açudes onde se pode praticar a pesca, uma caverna e quatro trilhas demarcadas com grau crescente de dificuldades. Para os praticantes de esportes radicais há quatro rampas de voo livre para asa delta e para-pente, ancorações para rapel e escaladas, além de outras comodidades de um bom hotel de lazer.
 ...A tarde estava propícia para uma caminhada e resolvi percorrer a “trilha do Rio”. Com 1 km de extensão é a menor das quatro trilhas. Faz uma volta em torno do hotel e de um de seus açudes, tendo o seu estreito caminho ladeado por pequenos arbustos sem folhas, com seus troncos ressecados e torcidos, aqui e acolá substituídos por árvores com folhagens esverdeadas, mais resistentes à seca. Algumas fotos tiradas e me dirigi ao restaurante, onde saboreei um delicioso sorvete apreciando as belas cores que se mesclavam no crepúsculo nordestino.


25/12/2009       Então é Natal...


...Dormi cedo no dia anterior e em alguns momentos acordei ao som da música que vinha do restaurante. Provavelmente, algum grupo resolveu comemorar a chegada daquele Natal no hotel. Nada que me impedisse de conciliar o sono, com a esperança de ter um bela alvorada novamente. Mas, infelizmente, não foi isso que  aconteceu e ao abrir a porta da varanda, logo cedo da manhã, nuvens escuras impediam a passagem dos raios solares, o que não me deu o privilegio de presenciar a chegada de mais um lindo dia.

 ...Por volta da nove horas da manhã, saí para percorrer a “trilha do Mirante”. Nuvens grossas e acinzentadas deixavam o clima abafado, indicando que poderíamos ter chuva ainda naquele dia. Inicialmente, o caminho tem uma íngreme subida e os galhos secos invadem a trilha a todo instante,obrigando-me a abaixar ou desviar para os lados. Senti um pouco em virtude do inadequado condicionamento físico e optei por ir num ritmo lento, algumas vezes parando para descansar e aproveitando para fotografar mais um pouco o cenário da caatinga.

 

  
Uma hora após e me encontrava no topo de uma pedra, conhecida como Mirante. O horizonte a meu redor era esplêndido! As formações rochosas estavam distribuídas isoladamente num ângulo de 180º. De um lado estava a Serra do Urucum e o abismo sobre o qual se jogam os aventureiros de asa delta. Em frente, o brilho dos reflexos dos fracos raios solares sobre a superfície da água dos vários açudes. Estradinhas à esquerda e o pequeno aglomerado de casas logo abaixo, de onde se ouvia um suave burburinho. E, por todo o horizonte, os sinais de destruição deixados pelo homem, focos de fumaça denunciavam a prática de queimadas.
 
De volta ao hotel, fui convidada por seu dono para acompanha-lo até o alto da “Pedra dos Ventos”, de onde iria saltar um canadense praticante de voo livre, ali hospedado há quase um mês. Ponto mais alto da área em torno do hotel, cerca de 600 m acima do nível do mar, é alcançado pela trilha mais difícil por conta da sua subida extremamente ingrime, apesar de ser toda calçada com paralelepípedos. Em um carro com tração nas quatro rodas, em pouco tempo chegamos lá.
Após verificar as adequadas condições do vento, o canadense abriu o parapente e num rápido salto se jogou, livre, no céu cearense.  Voltamos ao carro e aos poucos, enquanto descíamos pela trilha, víamos o aventureiro se distanciando cada vez mais e a última visão que tivemos foi um “pontinho”, que logo sumiu no horizonte.

...A chuva chega torrencialmente com trovões e relâmpagos no meio da tarde, enquanto estou tirando uma soneca.. Já era hora do jantar quando soube que o canadense tinha conseguido aterrissar a cerca de 100 km de distância, a chuva não o tinha atingido e já estava dentro de um ônibus, retornando ao hotel. Ao som dos sapos, dos grilos e dos pirilampos encerrei aquela noite natalina.
A cidade tem uma figura expoente na literatura. Quixadá foi adotada pela primeira mulher a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Raquel de Queiroz foi criada na Terra dos Monólitos, na fazenda “Não me Deixes”. Periodicamente, ia se encontrar com, segundo ela, sua fonte de inspiração: o sertão quixadaense.

        




        


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