Xapuri


Antiga Mariscal Sucre, surgiu como porto comercial no encontro dos rios Acre e Xapuri. Foi elevada à categoria de vila com o nome Xapuri em 1904. Denominação que se deve à tribo dos Xapuris que vivia na região. Teve relevância no Ciclo da Borracha, onde o produto era embarcado em vapores para o exterior. As lojas da "Rua do Comércio" tem importância histórica e arquitetônica, muitas abertas por árabes e portugueses. Hoje no "Centro histórico" pequenas placas identificam a quem pertenceram essas construções ou que atividade comercial era ali desenvolvida.


...O taxi me deixou na Pousada Ayshawa. Após um rápido café, sai para conhecer a cidade. Xapuri tem pouco mais de 14 mil habitantes e se tornou mundialmente conhecida em dezembro de 1988, ao ser assassinado em sua casa, o líder seringueiro Chico Mendes.

Chico viveu, desde criança, na floresta, onde foi alfabetizado. Contrário à politica de desmatamento organizou os seringueiros e liderou os “empates”, táticas passivas de resistência para evitar a derrubada de milhares de árvores. Esse movimento era realizado pelos seringueiros para barrarem os tratores e motosserras na mata. Após o diálogo com os trabalhadores que operavam as máquinas, acordava-se para que se cessasse a derrubada. Dessa forma pacífica encontraram uma saída para a vitória contra os latifundiários e pecuaristas muito mais poderosos, o que chamou a atenção internacional para os problemas ambientais da Amazônia.

O ambientalista também foi responsável pela fundação de sindicatos e do Conselho Nacional dos Seringueiros. Por sua atuação em defesa da Amazônia e dos povos da floresta, foi agraciado com vários prêmios, entre eles o Global 500, concedido pela Organização das Nações Unidas em 1987.
    Centro de Memória Chico Mendes

Apesar de ser o principal ponto turístico da cidade, a casa onde viveu e morreu o famoso ambientalista estava fechada, como também o Centro de Memória. Infelizmente as informações que obtive sobre o motivo, se verdadeiras, são, no mínimo, reprováveis.
  

A pequena casinha de madeira pintada de azul, contem os móveis e objetos usados nos últimos dois anos de sua vida. Declarada Patrimônio Histórico Nacional, é lastimável que, por motivos políticos e/ou administrativos, desavenças envolvendo os familiares do seringueiro e o governo estadual, estejam a mantendo fechada. Até 2009, verbas estaduais eram repassadas para manutenção dos estabelecimentos. No entanto, por não ter havido prestação de contas pelos responsáveis, a mesma foi suspensa e em 2010 a família resolveu suspende as atividades. Esta foi a informação que obtive em outubro de 2011.



No dia seguinte, conforme o combinado, o proprietário da pousada me levou para conhecer o Seringal Cachoeira. Já que não existe meio de transporte rotineiro para lá. Localizado a 30 km do centro de Xapuri, possui 240 km², faz fronteira com a Bolívia e tem 90% da floresta preservada. 

Um seringal é organizado em colocações e estas em 3 estradas de seringas, em média. Há diversas outras arvores como a castanheira, o ingá e a samaúma. Cada estrada possui de 150 a 200 seringueiras, fornecedoras do látex. Hoje em dia trabalham com o manejo florestal, onde há normas tanto para o corte como para a extração dos recursos naturais, como o látex e a castanha. A derrubada de espécies para o fornecimento da madeira é controlada. Assim, para se cortar uma árvore é necessário que existam nos arredores pelo menos quatro da mesma espécie.

A comunidade é constituída por várias famílias e cada colocação fica sob a responsabilidade de um trabalhador. Varios familiares de Chico Mendes ainda vivem lá. Um deles é o Sr Tião, ex seringueiro e primo do ambientalista. Foi ele quem me guiou por uma trilha até o encontro da gigante samaúma, onde são necessárias 14 pessoas de mãos dadas para circundá-la.


Observe o tamanho da mão do guia à direita!


O guia Sr. Tião fez uma demonstração de como se obtém o látex, uma seiva branca e viscosa que sai do caule da seringueira. Por essa característica, os índios a chamavam de "madeira que chora". Teve sua exploração econômica em larga escala no século 19, quando a borracha, produto dele obtido, passou a ser utilizada por vários setores.


Há muito se foi o tempo do Ciclo da Borracha. O látex de hoje é utilizado na fabricação de preservativos. Nos arredores da pequena cidade há uma fábrica, a Natex, que o utiliza como matéria prima.



Uma alternativa para a geração de renda é o aproveitamento do potencial eco turístico da região e é na  memória que vão ficando guardados os fatos históricos dos tempos áureos do "ouro branco" e das lutas empreendidas pelo sindicalista ambiental Chico Mendes. No próprio Seringal há uma pousada ecológica, iniciativa do governo do estado e da comunidade.

...No início da tarde retornei à BR 117 rumo a Assis Brasil. A rodovia liga Rio Branco a Assis Brasil e é considerada a parte brasileira da Rodovia do Pacífico. Está com seu asfalto conservado. Mas, é a paisagem que faz o espetáculo. As lindas e altíssimas castanheiras estão por toda parte. Chegam a atingir 50 metros. Em alguns pontos há plantios de seringueiras. Em outros, há o gado branquinho no verde pasto.

...Passamos pela cidade de Brasiléia, que está colada à Epitaciolândia. Vi alguns carros com placas da Bolívia e soube, pela primeira vez, do problema que a cidade estava enfrentando com a chegada frequente de refugiados haitianos, que deixam o seu país por conta do caos e da grave situação econômica que se instalou após o grande terremoto de 2010 que devastou o Haiti.

Brasiléia está ao lado da boliviana Cobija, que atrai muitos brasileiros por possuir uma zona franca e também permite o acesso fácil a quem quiser entrar no Brasil. Seguimos em frente e cerca de duas horas após chegamos à tríplice fronteira Brasil-Bolívia-Peru.

Na cidade de Assis Brasil é o momento de se atravessar a fronteira e entrar no Peru pela cidade de Iñapari. Porém, essa travessia ficou para o dia seguinte. Para ver sobre essa fronteira e a chegada ao Peru é só clicar aqui e aqui.




Impressões do Acre

Formado pela união de imigrantes nordestinos, em sua maioria, e indígenas de 15 etnias, o povo acriano desenvolveu um aspecto singular na sua cultura e tradição. Quem aí vive, procura retirar da mata o seu sustento sem destruir a floresta, defendendo esse lugar. Um grande legado deixado por Chico Mendes a seu povo, um modelo a se seguir. O que permite ao Acre ter 85% de suas florestas preservadas.          
Casal de araras que vivia na Pousada Ayshawa









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