Ouro Preto, o museu de arte barroca a céu aberto

Não se sabe quando, entre 1693 e 1698, ou quem foi que descobriu, no leito do rio Tripuí, a primeira pedrinha de ouro encoberta por uma fina e escura camada de óxido de ferro. O fato é que, ao se tornar público, muitos aventureiros se embrenharam na mata em busca do ouro e de glórias. Eram os tempos das bandeiras que iam em busca das minas. A primeira a chegar foi a de Antônio Dias que fundou um arraial, mas apesar de muito ouro aos pés do Itacolomi, não havia o suficiente para a ganância de tanta gente. E do pequeno arraial, anos depois se transformou em um grande e desorganizado aglomerado urbano.

Os diferentes interesses levaram a disputas sobre quem teria o direito legítimo sobre as minas. Portugueses e paulistanos deflagraram a guerra dos Emboabas(1708-1709), que terminou com a vitória dos primeiros. Vários arraiais se agrupam e dão origem à Vila Rica(1711). Mas o ouro começa a escassear e a Coroa, a partir de 1760, para combater o contrabando e garantir seus lucros, aumenta a fiscalização e a cobrança de impostos. Tamanha opressão desencadeia a Inconfidência Mineira.


Em 1823 Vila Rica se torna a cidade de Ouro Preto, que foi capital da Província de Minas Gerais até 1897, quando é inaugurada Belo Horizonte.  Muitos anos se passaram, o ouro acabou, mas a época do fausto nos legou um rico patrimônio cultural, histórico e artístico que foi reconhecido mundialmente em 1980, quando a UNESCO declarou Ouro Preto Patrimônio Cultural da Humanidade.


Para a sociedade mineira do século 18, de nada adiantava acumular ouro se não pudesse ostentar a riqueza e foi através dos seus atos de fé que puderam demonstrar todo o seu poder. Então se inicia uma competição entre os vários segmentos dessa sociedade. Cada um, representado por uma determinada ordem religiosa secular, queria construir a mais rica e bela igreja como forma de força e influência. 


O Ouro se espalhou entre altares, imagens e objetos litúrgicos. Ambiente propício para as artes, berço para o nascimento de gênios como Aleijadinho, Mestre Ataíde e tantos outros. O barroco europeu chega e aqui vai se adaptar nos palacetes, igrejas, capelas,  pontes e chafarizes.


...E foi para conhecer um pouco do maior conjunto arquitetônico do barroco do país que cheguei em Ouro Preto. Não recordo que roteiro segui enquanto lá estive caminhando nas ladeiras históricas e muitas vezes íngremes, mas confesso que a cada ponto que parava para recuperar o fôlego, surgia a oportunidade de vislumbrar um novo ângulo, um casamento perfeito da arquitetura colonial com a natureza do entorno.


...Portanto, irei aqui tentar descrever o que ficou registrado na memória. E as primeiras imagens que vêm a mente são as das seculares igrejas. Diversos são os templos que dominam a paisagem e muito tempo por lá necessitaria para conhecer todos eles. Dessa forma optei pelas igrejas mais conhecidas. E desse grupo eu destaco em primeiro lugar a Matriz de Nossa Senhora do Pilar.

Uma das mais ricas igrejas do Brasil, onde foram empregados cerca de 400 kg de ouro folheando os entalhes de madeira dos seis altares. Foi construída entre 1711 e 1733 e para sua inauguração organizaram uma grande festa religiosa, O Triunfo Eucarístico. O templo é um bom exemplo do apogeu da região, onde a extravagância das igrejas era o resultado da concorrência entre as ordens religiosas e sinônimo de status para a irmandade responsável por sua construção, neste caso, foram várias irmandades que assumiram esse custo e cada uma ficou com o compromisso de cuidar do próprio altar.

Foto: fotografia de um postal do interior da Igreja

A talha da capela-mor foi executada por Francisco Xavier de Brito, mestre entalhador português que veio para o Brasil exercer seu ofício. Para um passeio virtual pela Igreja veja aqui. Outras informações aqui e aqui.
Serviço
Onde: Praça Monsenhor Castilho Barbosa - Pilar
Quando: 3ª a dom. das 9 às 10:45 h e das 12 às 16:45 h
Quanto: R$ 8,00 (incluindo o ingresso para o Museu de Arte Sacra)


A Igreja de São Francisco de Assis foi construída entre 1765 e 1810. É a mais famosa de Ouro Preto e sua fachada considerada uma obra prima do barroco mineiro, com o medalhão escupido por Aleijadinho, que também foi responsável por toda a capela-mor, imagens do altar e da sacristia.
Outro expoente dessa época, Mestre Manoel da Costa Athaíde, pintou o forro da nave ao longo de 10 anos, que impressiona pela riqueza de detalhes e a ilusão de óptica causada pelos pilares pintados em perspectiva. Como não se pode fotografar no interior da Igreja, a ilustração é de uma foto que tirei de um postal do seu teto. Mas para se ter uma ideia dessa magnífica obra, é só fazer um tour virtual. Veja aqui. Outras informações aqui


No largo em frente à Igreja, Largo do Coimbra, está a permanente feirinha de artesanato, onde se pode encontrar objetos em pedra-sabão e artistas executando suas obras. Ao lado da igreja se encontra um pequeno cemitério.
Serviço
Onde: Largo do Coimbra - Centro
Quando: 3ª a dom. das 8:30 às 11:45 h e das 13:30 às 17:00 h
Quanto: R$ 6,00(inclui a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e o Museu Aleijadinho)


Outra parceria  entre Aleijadinho e Mestre Athaíde se pode observar na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Projetada em 1766 por Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho, foi concluída 10 anos após e teve durante a construção o projeto modificado pelo filho.
Em estilo Rococó (a última fase do barroco) é menos carregada de ouro e a única do estado com painéis de azulejos portugueses ( na capela-mor). O Altar-mor e o douramento dos demais altares são do Mestre Athaíde.

A portada, o lavabo da sacristia, os púlpitos e os altares laterais de Nossa Senhora da Piedade e São João Batista são de Aleijadinho. Faça um tour virtual aqui. Mais informações aqui
Serviço
Onde: Rua Brigadeiro Musqueira (atrás do Museu da Inconfidência)
Quando: 3ª a sábado. Das 12 às 16:45 h. Aos domingos, das 9:30 às 11 h/ das 13:30 às 16:45 h.
Quanto: R$ 2,00

Como os negros eram proibidos de frequentar as igrejas dos brancos, construíam as próprias, como a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Sua construção foi iniciada em 1785. Tem uma arquitetura única de forma curvilínea o seu interior singelo não foi possível conhecer, pois estava fechada.
A curiosidade é saber onde os negros conseguiram recursos para erguer igrejas. Segundo se conta, os escravos, que compunham quase 80% da população naqueles tempos, desviavam pequenas porções de ouro escondidos na boca, embaixo das unhas e nos cabelos. Já que não entrei, aproveito também para fazer o tour virtual aqui e obter mais informações aqui.
Serviço
Onde: Lago do Rosário
Quando: 3ª a sábado, das 12 às 16:45 h
Quanto: gratuita

A Igreja do Padre Faria (em homenagem ao sacerdote que celebrou a primeira missa na região) tem uma fachada muito simples, contrastando com seu rico interior. Foi construída entre 1701 e 1704 e ganhou a cruz papal em 1756. Tem um campanário separado do templo. Para fazer um tour virtual é só clicar aqui
Serviço
Onde: Rua Padre Faria
Quando:
Quanto:


Por fim a Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Erguida entre 1727 e 1756 foi projetada e executada por Manuel Francisco Lisboa, pai do Aleijadinho.

 A Igreja tem uma fachada simples, diferente do seu interior, que também foi usado para ser a última morada do maior artista barroco brasileiro, o Aleijadinho. Mais informações podem ser obtidas aqui e para fazer um tour virtual aqui.
Serviço
Onde: Praça Antônio Dias - Centro
Quando: 3ª a sábado, das 08:30  às 11:45 h/ 13:30 às 16:45 h. Aos domingos das 12 às 17 h.
Quanto: Mesmo ingresso para a Igreja São Francisco de Assis


...Não foi possível visitar todas, mas a cada caminhada eu me deparava com uma capela ou igreja. Era só levantar os olhos para um morro e lá estava mais uma.

...Apesar de serem as principais atrações da cidade, não são apenas as igrejas e capelas que atraem em Ouro Preto. O charme da cidade está também no conjunto de seu casario colonial, nos interessantes museus, nas pontes, nos chafarizes, nos atrativos naturais e até nas íngremes ladeiras com calçamento em pé-de-moleque que sempre estão nos remetendo ao passado.

...E como já dizia Manuel Bandeira em seu Guia: "O Encanto da mais famosa cidade histórica mineira está em não mudar". E não mudando tenho a oportunidade de vivenciar um pouco do clima de três séculos atrás, enquanto subo e desço as ruas de pedras irregulares que brotaram com a riqueza do ouro garimpado no século 18. Tempos em que a cidade de Vila Rica, futura Ouro Preto, era uma das mais promissoras do mundo, onde suas minas de ouro pareciam inesgotáveis, permitindo o surgimento de igrejas e casarões suntuosos decorados com o melhor da arte barroca da época.


...Mas a riqueza que de lá era extraída, escoava para abarrotar os cofres da Coroa Portuguesa e quando as diversas minas se esgotaram, não só Ouro Preto, como também Sabará, Mariana e Tiradentes ficaram paradas no tempo. Tanto melhor, caso contrário eu não estaria aqui fazendo essa viagem ao passado.



Comentários

olhodopombo disse…
...e hoje você pode andar pela cidade e ver grutas abertas que foram entradas de minas passadas....
Marcia Ramos disse…
Verdade, mas só conheci a Mina da Passagem