Chichén Itzá, a espetacular combinação das culturas maia e tolteca


Fontes arqueológicas e históricas, estas últimas impregnadas de elementos lendários, dão indícios de que este sítio maia da península mexicana de Yucatán possui a mistura da cultura maia com a tolteca. Os elementos decorativos, como esculturas e baixo-relevos de pedra e as lendas sobre o exílio de um rei tolteca sugerem que tenha havido um domínio desse povo sobre os maias. 

Mas também pode ter sido Tula, cidade dos toltecas, quem teria recebido as influências dos maias de Chichén Itzá, segundo outras teorias(será?). O fato é que em Chichén Itzá, o sítio mais conservado e totalmente desenterrado da península, fica evidente a forte presença do culto a Quetzalcóatl, uma divindade antropozoomorfa, herança da civilização teotihuacana e que está associada ao herói tolteca e rei de Tula, que ao ser destronado pelo irmão, teria emigrado para Yucatán.


Documentos da época colonial narram a chegada na cidade de uma figura nobre e culta a qual os maias deram o nome de Kukulcã ("serpente emplumada") e que teria trazido muitos conhecimentos em diversas áreas, responsáveis pelo desenvolvimento e prosperidade de Chichén Itzá, tornando-a principal cidade da área maia de Yucatán, em finais do século 10.


Porém a história da cidade é muito mais antiga. Conta-se que no século 5, um grupo maia fundou um povoado nessa área e até o século 7 construíram os primeiros edifícios com estilo arquitetônico Puuc.


A partir do ano 900 se vê nas edificações um novo estilo arquitetônico, de líneas severas e motivos ornamentais com predomínio da representação do deus-serpente Kukulcã.


A arquitetura desse sítio é um híbrido de elementos herdados dos maias do Período Clássico, elementos do estilo puuc e novas contribuições dos toltecas, cujos vestígios, sob o ponto de vista material, são observados nas referências aos sacrifícios humanos (muito acentuado nos toltecas) representado pelo altar de crânios (uma plataforma), onde eram fincadas as cabeças das vítimas decapitadas, o Tzompantli. 


Eu cheguei em Chichén Itzá no final da tarde, proveniente de Tulum. Optei por ficar hospedada no Hotel & Bungalows Mayaland, ao lado do sítio histórico, onde a porta de entrada era voltada para um dos belos monumentos - O Observatório.


Na manhã seguinte, no horário que abre para visitação, eu e o guia que contratei no próprio hotel seguimos para o tour. Esse foi o motivo de ter me hospedado no Mayaland, que fica a 100 metros da área das ruínas, a possibilidade de começar a vê-las bem antes da chegada das dezenas de turistas que vão todos os dias para Chichén Itzá.


O roteiro guiado foi o seguinte:


 O Templo dos Guerreiros
O Templo representa a mistura dos elementos maias e toltecas. No topo da estrutura piramidal de quatro níveis, há uma esplanada que é acessada pela escadaria e tem logo a frente uma estátua do chac mool, um altar antropomórfico, situado entre duas pilastras em forma de serpente, cujas bases são as cabeças.


O edifício deve o seu nome às pilastras com representações de guerreiros. Abaixo um detalhe do templo onde se pode ver cabeças de serpente esculpida na borda da escadaria e esculturas antropomórficas(sacerdote?). Na esquina da fachada há máscaras do deus chac.

Nos detalhes, elementos decorativos com animais devorando corações...


Plaza das Mil Colunas
É o que restou de grandes salões que ladeavam o Templo dos Guerreiros. Acredita-se que ali pode ter sido para negócios(compra , vendas) ou mesmo discussões.


Templo das Grandes Mesas
Ao lado do Templo dos Guerreiros, uma pirâmide de quatro níveis e sobre essa estrutura colunas de um templo.



Em várias edificações de Chichén Itzá se vê a mescla de estilos. À estrutura piramidal tipicamente maia são acrescentados elementos novos, formados por colunatas leves e elementos iconográficos relativos às ordens militares e ao culto da serpente emplumada dos toltecas. O sistema sociopolítico fortemente militarizado dessa sociedade, com as ordens do Jaguar, da Águia e do Coiote, manifesta-se em várias expressões artísticas de Chichén Itzá, como os baixos-relevos que representam águias e jaguares devorando corações humanos e os guerreiros triunfantes expondo o crânio de vítimas decapitadas.


Campo Jogo de Pelota
O jogo de bola praticado na época dos maias muito mais do que um esporte ou tipo de lazer, era uma cerimônia ritual. Com 168 metros de extensão, ornado por dois templos em suas cabeceiras e ladeado por muros paralelos aos quais se fixa um aro de pedra em cada lado, por onde a bola de borracha deveria passar, é o maior que existe na Mesoamérica e data do século 9.


Um aro com baixo relevo representando Kukulcã. Acredita-se que o capitão perdedor, e possivelmente os demais da equipe, fosse sacrificado. Há relevos nas paredes mostrando cenas de decapitação. No entanto o guia me informou que o sacrificado era o vencedor, pois seu sangue irrigando a terra seria uma oferenda aos deuses e portanto, uma honra.


Templo dos Jaguares
Foi construído sobre o muro do campo do Jogo de Pelota. Há corpos de serpentes emplumadas com suas cabeças nos extremos do friso.


Em toda a largura do friso há a repetição de mosaicos com dois jaguares avançando em direções opostas até um escudo. Os baixo-relevos terminam em uma moldura com serpentes entrelaçadas.


No interior há murais e entre as duas colunas principais, a escultura de um jaguar.
Plataforma das Águias e dos Jaguares
Pequena plataforma quadrada com quadradas com quatro escadarias, com cabeças de serpentes em cada lado. Há entalhe de águias e jaguares segurando corações em suas garras.


Plataforma dos Crânios(Tzompantli)
É decorada com entalhe de numerosos crânios. Um verdadeiro monumento à crueldade da guerra.


O Observatório(O Caracol)
Essa estrutura circular pode ter sido um observatório astronômico. Apresenta uma fusão de estilos arquitetônicos e foi construído sobre duas grandes plataformas retangulares superpostas. Há quatro janelas voltadas para os pontos cardeais, permitindo observar o alinhamento de estrelas, o que possibilitava aos sacerdotes determinar a época para a realizações de rituais sagrados, plantações e colheitas.


Tumba do Grande Sacerdote
Um edifício piramidal com cabeças de serpentes nas bases das escadarias,parece uma réplica de menor tamanho do Castelo. Foi descoberto sob ela um poço que se comunicava com uma gruta, na qual estavam ossos humanos e objetos preciosos. Daí também ser conhecida por O Ossário.

Edifício das Religiosas e a Igreja
Construções com influência puuc. Pode ter sido um palácio da realeza maia, o edifício de Las Monjas(Convento), com seu vários quartos lembrava, aos espanhóis, um convento.


O Castelo
É um templo dedicado ao deus Kukulcã. Composto por uma pirâmide quadrangular, com 24 metros de altura e um templo no topo. Possui nove pisos escalonados, que simbolicamente representam o número do inframundo maia(região dos mortos). Cada lado conta com uma escadaria com 91 degraus, flanqueadas por balaustradas, que conduz ao templo. O somatório de todos os degraus(91 x 4 + 1 da plataforma superior) é igual a 365, o número de dias do ano, ou seja, a estrutura é um calendário. Após escavações se descobriu que essa pirâmide foi construída sobre outra mais antiga.


A escadaria norte tem a balaustrada apoiada em cabeças de serpentes e durante os equinócios de primavera(21 de março) e de outono(21 de setembro), ocorre um curioso fenômeno conhecido por "Luz e Sombra". Num horário da tarde, o sol projeta nessa balaustrada luzes e sombras que ao se fundirem dão a impressão de movimento de cima para baixo ou vice-versa, configurando a silhueta de uma serpente se movimentando. Esse efeito marcaria o começo do ciclo agrícola.

Apesar de todo o esplendor, Chichén Itzá entrou em decadência e foi abandonada por volta do século 14. Até a presente data não se conhece qual foi o motivo, mas  durante muitos anos a região ainda se manteve como local de peregrinação dos maias, até ser esquecida e tomada pela mata.


À medida que a manhã avançava, a área era tomada por inúmeros turistas e diversos camelôs. Não é a toa que Chichén Itzá foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade em 1988, pela UNESCO e a Pirâmide de Kukulcã, eleita uma das novas Maravilhas do Mundo Moderno.


Serviço
Quanto: 64 pesos mexicanos
Quando: 2ª a dom. Das 08 às 17 horas
Guia:Não é obrigatório, mas acho válido, principalmente se for exclusivo e se comunicar em português (800 pesos mexicanos)



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Sites úteis
Chichén Itzá(oficial)

Comentários

olhodopombo disse…
MUITO BOM!
Marcia Ramos disse…
Obrigada, Fátima