De Bariloche a Mendonza


O verão do hemisfério sul corresponde ao período de baixa temporada em Bariloche. Na época do inverno a cidade recebe muitos turistas, principalmente brasileiros, ávidos pelos esportes praticados na neve. Mesmo assim, em janeiro, você se depara com muitos viajantes e mochileiros europeus que fugindo do rigoroso inverno do Hemisfério Norte, vão se aventurar em trilhas, desbravar a Rota 40 ou viajar em direção ao norte, até Mendonza.







18/01/2009   Bariloche 30 anos depois


...Finalizando o percurso da Rota 40, iniciada dois dias atrás em El Chaltén, chegamos pela periferia de Bariloche e foi possível perceber os reflexos da crise financeira pela qual passou a Argentina há poucos anos atrás. O empobrecimento e o crescimento desorganizado não pouparam aquela linda cidade que me encantou há trinta anos. Desfilava pela janela do ônibus bairros no mais autêntico estilo “favela”. Senti uma onda de tristeza ao me deparar com aquelas imagens, certa sensação de decadência e a certeza de que Bariloche agora está muito mais para América Latina do que em anos anteriores, onde o seu charme nos remetia às cidades alpinas.
...Chegamos a uma das principais ruas do centro, onde desci com o endereço da hospedagem que foi reservada pela guia que nos acompanhou neste segundo dia de viagem. A bordo de um taxi e sete quarteirões acima, estava lá. Em fim, teria um quarto com banheiro só para mim, naquela noite e terminava minha experiência viajando e me hospedando em hostel ou Albergues da Juventude.
...Tomei um longo e delicioso banho, mas minha prioridade era providenciar a passagem de ônibus para Mendonza. Já tinha decidido que Bariloche seria uma parada técnica, como também preferia guardar na minha memória as suas belas imagens de outra época e não o que poderia ver agora. Assim, pela internet, localizei o site de uma empresa de ônibus - Andesmar – e marquei a viagem para as 13 horas do dia seguinte.
 
...Fiz um lanche com o que sobrou da viagem e vi pela TV argentina que a semana que se iniciava ficaria para a história!

"Eu Tenho Um Sonho"
(Discurso de Martin Luther King 28/08/1963)

"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação. Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchado nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros. Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.

Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. 


Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".  Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça. 

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia. Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial. Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus
.


Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.


E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Vocês são os veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.
 
Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississipi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje! 

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!  
Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.
"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.
Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,
De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"
E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.
E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.
Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.
Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.
Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.
Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.
Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennesse.
Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.
Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.
E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós o deixarmosele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho espiritual negro:
"Livre afinal, livre afinal.
                             Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."

...E o sonho se realizou, pelo menos 46 anos depois! o primeiro Negro ocupando o mais importante cargo da Nação norte americana. Barack Obama assume a presidência dos Estados Unidos da América, após sua eleição com ampla maioria.



19/01/2009       Partindo de Bariloche rumo à Mendonza
Acordei muito cedo e saí em direção às ruas centrais de Bariloche. Na esquina entrei numa lanchonete e tomei um café com leite e “media lunas” deliciosas. Ao sair de um caixa eletrônico, deparei-me com uma loja da Aerolineas Argentinas. E foi neste momento que decidi: era a hora de comprar a passagem de volta para casa. Assim sai de lá com os bilhetes aéreos Mendonza- Buenos Aires e Buenos Aires – São Paulo para dali a três dias.
 
Aproveitei o final da manhã livre para rever o hotel onde fiquei hospedada há 30 anos, a catedral da cidade e o lindo Lago Nahuel Huapi. Ainda passei no mercado onde comprei água e o tempo restante só foi suficiente para pegar um taxi até o residenciale, tomar um rápido banho, fechar a bagagem, pagar a diária e outro taxi já aguardava para me deixar na rodoviária.




Viajando de Bariloche para Mendonza

...O atraso de duas horas pela empresa de ônibus foi mais que suficiente para evidenciar o aspecto “decadente” em que se encontrava essa parte da cidade. A minúscula rodoviária estava lotada, suja e com cachorros perambulando e brigando por restos de comida jogados ao chão.


Mas a ineficiência da empresa de ônibus não ficou só no atraso do embarque. Em um ônibus que já estava na estrada há cerca de 18 horas, não é apenas um banheiro sujo que se pode encontrar, muitas outras coisas podem acontecer...
A espera ao lado da rodoviária


...Apesar das lindas paisagens que se descortinavam em minha janela e do assento confortável em que me encontrava (reservei assento “cama”), começamos a perceber que o sistema de ar condicionado não estava funcionando bem. Cada vez mais a temperatura aumentava dentro do ônibus.
 
Na primeira parada técnica a situação era a seguinte: tínhamos um ônibus com passageiros distribuídos em dois andares, um banheiro exalando seus odores típicos no andar de baixo (onde eu me encontrava), uma previsão de 18 horas de viagem pela frente, um ar condicionado que não funcionava e janela vedadas que não podiam ser abertas!

A solução informada pelo motorista: chegaríamos até a rodoviária de Neuquem, onde o ônibus seria trocado e seguiríamos viagem pela noite adentro com todo o conforto que merecíamos até Mendonza. E assim descemos naquela rodoviária, onde aproveitei para comprar um desodorizador, pois queria me prevenir para os eventuais odores noturnos. Duas horas após e estava de volta o mesmíssimo ônibus no qual partimos de Bariloche. Pelo menos tinham feito uma limpeza e a situação do banheiro estava mais aceitável. No entanto, algo me dizia que o sistema de ar condicionado não estava tão bom como deveria. Ainda bem que já passava das 21 horas e a temperatura naquelas regiões desérticas diminui bastante à noite.


Mais de 20 horas após sairmos de Bariloche...




A madrugada foi tranquila, passamos em algumas pequenas cidades para embarque e desembarque de passageiros. Ao amanhecer já tínhamos entrado em terras da província de Mendonza, uma última parada técnica e logo em seguida já começo a avistar de minha janela, a minha esquerda, aquele que é o ponto mais alto das Andes, o Aconcágua.

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