Rodovia do Pacífico

No início do século XX, o então chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, engenheiro Euclides da Cunha, desembarcou na Amazônia com o objetivo de demarcar os limites territoriais nas longínquas fronteiras com o Peru. O autor de Os Sertões já vislumbrava a possibilidade da unificação do continente sul americano por meio de uma rodovia que ligasse o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. 






No entanto, isto só se tornaria possível um século depois, com o esforço conjunto dos governos brasileiro e peruano na execução de uma ambiciosa obra que tem o nome oficial de Corredor Viário Interoceânico Sul.

Apesar das adversidades, o homem andino, em diferentes épocas, conseguiu estabelecer diversas vias de comunicação. Estradas de ferro pelas encostas das montanhas e rodovias conservadas, outras nem tanto, mas que conseguem superar grandes altitudes. Porém, ainda é possível encontrar em algumas regiões, caminhos que não são mais que um rastro deixado pelo transporte que passou na frente. Em outros, os meios de transporte nem chegam, tendo-se que recorrer ao lombo de animais ou mesmo percorrer grandes distâncias a pé, por trilhas que já eram utilizadas pelos seus antepassados há séculos.

No entanto,  esse homem sempre sonhou com muito mais. O sonho de integração dos países latino-americanos. E, não há nada mais definitivo para se ter esse elo do que a possibilidade de se cruzar fronteiras por terra.


Com o objetivo de integração econômica, permitindo o escoamento de produtos agrícolas e outras mercadorias pelos portos da costa peruana, em Matarani, Ilo e San Juan, a Rodovia do Pacífico ou Carretera Transoceânica pode se tornar uma poderosa ferramenta de progresso entre os países fronteiriços e de incentivo para as relações comerciais do Brasil com os países asiáticos.



Em 2005, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva participou, na cidade peruana de Puerto Maldonado, do lançamento da pedra fundamental dessa tão sonhada rodovia. Porém, no traçado que já existia, a estrada era sinônimo de aventura para viajantes de todo o mundo. Trechos de lama, penhascos, rios e garimpos dentro da floresta era uma forma exótica de percorrer a exuberante planície amazônica e as montanhas de picos nevados da Cordilheira dos Andes para se chegar às fortalezas sagradas do Império Inca, em Cuzco e Machu Pichu. E daí, atingir o deserto peruano, na costa do Pacífico.

Seis anos depois, o empreendimento de 2.600 km e ao custo de U$ 1,8 bilhão, tem seu traçado partindo de Rio Branco, no Acre e após percorrer 344 km em território brasileiro, atravessa a fronteira do Peru de onde avança mais 2.256 km pela Amazônia e Andes Peruanos, até chegar aos portos do Pacífico.  

Um século depois está concretizado o sonho de Euclides da Cunha e eu resolvi chegar ao Peru percorrendo grande parte da Rodovia Interoceânica, para conhecer o legado cultural e artístico deixado pelos Filhos do Sol, como também o que restou de outras culturas pré-colombianas.




Viajando pela Rodovia do Pacífico

O território peruano é marcado por uma grande diversidade geográfica, ao longo da Interoceânica ou Carretera Interoceânica Sur, é possível distinguir as três diferentes regiões: Selva, Serra e Costa.


De Iñapari até Puerto Maldonado, a estrada atravessa a Amazônia Peruana. A paisagem alterna entre áreas de mata fechada, com grandes e exuberantes árvores, e extensos pastos verdinhos. Em duas ocasiões boiadas cruzaram o caminho, obrigando-nos a reduzir a velocidade.
O tempo continuou nublado, mas não choveu. Aos acordes da música peruana, único som que se ouvia no interior do carro, entramos na cidade de Iberia para o desembarque de alguns passageiros e embarque de outros.


Apesar do desenfreado desmatamento que está acontecendo nesta região, vi apenas uma área à beira da estrada com árvores derrubadas. Ocupando 60% de toda a área do país, a planície amazônica também sofre os efeitos de diversos garimpos de ouro, onde  milhares de garimpeiros devastam a floresta em busca de suas riquezas minerais. Espalhadas nessa região há pelo menos 35 tribos indígenas que ainda sobrevivem da caça, da pesca e da coleta de alimentos como faziam há milênios.

A rodovia tem longas retas que são entrecortadas por muitos lugarejos. Avança pela planície amazônica em direção ao Rio Madre de Dios, o mais importante tributário do Rio Madeira. Lá se localiza Puerto Maldonado, onde se dá a confluência desse rio com o rio Tambopata.



Os ônibus saem no horário noturno de Puerto Maldonado em direção à Cusco. Estava um pouco desapontada porque não veria o trajeto que cruzaria a Cordilheira. Porém, cerca de duas horas após, o ônibus e todos os que trafegavam àquela hora pela Rodovia do Pacífico foram obrigados a interromper a viagem até as cinco horas do dia seguinte. Ocorrera um desmoronamento e grandes blocos de pedras estavam bloqueando a pista. Adormeci e só acordei às primeiras horas da manhã, quando a pista foi liberada para seguirmos.

Assim, pude desfrutar da exuberante beleza da Cordilheira dos Andes com os seus picos nevados e vivenciar a beleza da engenharia moderna representada por grandiosas pontes que cruzam os rios que descem das montanhas, como também admirar a serpiginosa estrada, ora beirando abismos, ora aos pés de montanhas. 



Após cruzar a Amazônia Peruana, inicia-se a íngreme subida e as grandes árvores começam a dar espaço a uma vegetação mais baixa. Na altura da Ponte Iñambari a Rodovia do Pacífico sofre uma bifurcação. Seguindo-se em frente se entra no departamento de Puno e na altura da cidade de Juliaca, uma segunda bifurcação da acesso a duas vias que levam ao Pacífico, podendo-se chegar ao Porto de Ilo ou ao de Matarani. Porém o nosso destino era Cusco, viramos à direita e atravessamos a ponte.





Margeando o Rio Iñambari, continuamos ganhando altura. Altas montanhas, pequenas cachoeiras que despencam do alto e o verde da vegetação que ainda se pode ser vista é o panorama que tenho a minha janela. Mas, o que me chama a atenção é a sinuosa e íngreme estrada. Curvas e mais curvas obrigavam o ônibus  a não ultrapassar os 30 km/h. 


Passamos por Quincemil e já ultrapassamos os 2.000 m de altura. Curiosamente não senti qualquer efeito da altitude. Aos poucos os arbustos retorcidos ganham lugar na paisagem. Mas, logo depois, apenas uma vegetação rala e pedras. Uma descida íngreme para logo voltarmos a subir. Chegamos a 3.100m e Marcapata ficou para trás. Surgem os desfiladeiros, as grandes montanhas e os precipícios cercando a estrada. Atingimos o seu ponto mais alto: 4.700 m! Agora a neblina é a única imagem que temos. 



As curvas continuam fechadas, começamos a descer, surge novamente a vegetação e com ela os outros sinais de vida. Animais adaptados a essas condições, casas de pedra, terraços de plantio, pastores cuidando de seus rebanhos e mulheres com sua típica maneira de carregar seus filhos amarrados em um colorido pano às costas. Passamos por Ocongate. Ruínas incas e plantações em terraços seculares na beira da estrada não deixam dúvidas de que chegamos aos caminhos dos Filhos do Sol.


Volta-se a subir mais um ramo da Cordilheira, para depois iniciar uma descida. La embaixo o Rio Urubamba correndo para dentro do Vale Sagrado. Do alto se avista a pequena cidade de Urcos. Continuamos descendo por curvas fechadas. E, finalmente, 1030 km após a partida chegamos em Cusco.



Impressões da Rodovia

A Rodovia do Pacífico passa por vários povoados à beira do caminho. Se não se transformar em um corredor de exportação de produtos brasileiros para a Ásia, já que é uma via muito sinuosa e estreita (sem acostamento), com certeza servirá de elo de integração regional para essas comunidades que antes se encontravam bastante isoladas.



Ao longo da Rodovia foram construídas 207 pontes, entre elas a Billinghurst, feita de estrutura metálica vermelha e suspensa por grandes cabos de aço, presos a 75 metros de altura, atravessando o Rio Madeira, em Puerto Maldonado. Empregou 3.800 trabalhadores de setembro de 2005 até 2011.

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