Acre: As Origens


...O seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se...
                               Euclides da Cunha
A história do Acre  começa a partir de 1860, quando surgem as primeiras viagens de exploração. Até então, a Amazônia era conhecida apenas por meio de mitos: índias guerreiras, botos que se transformavam em homens e engravidavam mulheres, etc. Nessa época  se constatou não só a presença indígena, mas a grande riqueza natural daquelas terras, o que despertou  a cobiça dos exploradores. 

Inicialmente terra de ninguém, apesar de pertencer à Bolívia e partes, ao Peru, não era ocupada efetivamente. Em 1870 teve início uma verdadeira “corrida do ouro”, fazendo com que em poucos anos os rios acreanos fossem tomados de assalto. Milhares de homens vindos de todas as partes do Brasil e do mundo passaram a subir esses rios estabelecendo imensos seringais em suas margens. Era a febre provocada pelo ouro negro, a borracha.

Manipulada pelos índios na fabricação de pequenos objetos, em meados do século 18, um pesquisador francês que descera o Rio Amazonas, vislumbrou o valor comercial da borracha. Porém a sua exploração só teve início com a Revolução  Industrial, alcançando seu apogeu após a descoberta do processo de vulcanização (por Goodyear), que a tornava resistente às variações de temperatura, possibilitando o desenvolvimento da indústria de processamento da borracha e a fabricação de pneus.
Extraída da seringueira, depois de defumada, era exportada para abastecer as indústrias europeias e norte-americanas, adquirindo preços cada vez mais altos no mercado internacional.

Dois afluentes do rio Amazonas, os rios Purus e Juruá, davam acesso direto aos vapores provenientes de Belém e Manaus, trazendo milhares de brasileiros e levando toneladas de borracha. E foram nessas cidades que se estabeleceram empresas aviadoras (casas comerciais que forneciam mercadorias aos seringalistas, que por sua vez recebiam a borracha produzida nos seringais em troca dos produtos que forneciam aos seringueiros).


Essas empresas também ofereciam empréstimos, cujo dinheiro era utilizado para aquisição de mão de obra farta e barata encontrada nos estados nordestinos que enfrentavam as mazelas da seca. Fugindo dessas situação em sua terra natal, o nordestino migrava para a região com a promessa de enriquecer com a coleta de látex. Milhares de nordestinos foram trazidos à região em condições subumanas. Muitos morreram vítimas da malária, febre amarela, tuberculose e varíola. Além da  ataque de índios e a de animais.

As primeiras reclamações bolivianas de posse do Acre surgiram em 1895, mas os brasileiros já estavam ali situados há pelo menos 15 anos, com grandes e produtivos seringais, o que desencadeou desavenças entre seringalistas e o governo central boliviano, que resolveu ocupar militarmente o rio Acre, enquanto negociava um contrato de arrendamento com capitalistas europeus e norte-americanos interessados na exploração da borracha da região.


Para garantir o domínio da área, a Bolívia instituiu a cobrança de impostos sobre a extração da borracha e fundou a cidade de Puerto Alonso. Após conflitos armados a cidade foi retomada por brasileiros e rebatizada como Porto Acre.

Em 1899 a República do Acre foi criada e liderada pelo espanhol Luiz Galvez de Arias, que entrou para a história como o Imperador Galvez. Não reconhecido pela comunidade internacional, nem mesmo pelo governo brasileiro, que baseado no tratado internacional de Ayacucho assinado em 1867, considerava o Acre como território boliviano, foi dissolvida a República do Acre em 1900. 

Conta-se que o visionário espanhol idealizou no meio da floresta um país surpreendentemente moderno. Escolas, serviço médico e ministérios foram criados. Mas, o símbolo dessa época permanece até os dia de hoje, a bandeira metade verde, metade amarelo, com a estrela vermelho sangue no alto.

Apesar disso os “revolucionários” brasileiros se mantiveram mobilizados. O Governo do Amazonas, mesmo contra a vontade federal, continuou apoiando a luta acriana e uma nova expedição, a Expedição dos Poetas, proclamou a Segunda República do Acre em novembro de 1900.Um mês depois os brasileiros foram derrotados pelos militares bolivianos.

Em 1901 a Bolívia assinou um contrato de arrendamento do Acre com um sindicato de capitalistas norte-americanos e ingleses. O Bolivian Syndicate, assumiria total controle sobre a região, inclusive militar.

Em 1902, José Plácido de Castro, militar gaúcho, foi enviado ao Acre, iniciando a então denominada Revolução Acriana. Os rebeldes imediatamente tomaram toda a região, exceto Puerto Alonso, que somente se rendeu seis meses após. Foi proclamada a Terceira República do Acre, agora com o apoio do presidente Rodrigues Alves.

Dessa vez diplomacia brasileira entra em cena. Sob o comando do Barão do Rio Branco, os governos do Brasil e da Bolívia assinaram em 21 de março de 1903 um tratado preliminar, ratificado pelo Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903. Neste, a Bolívia abriria mão de todo o Acre em troca de territórios brasileiros do Estado de Mato Grosso mais a importância de 2 milhões de libras esterlinas e a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, ligando os rios Mamoré (em Guajará Mirim/RO, fronteira com a Bolívia) e o Madeira (afluente do Amazonas, que corta a cidade de Porto Velho/RO), com o objetivo de permitir o escoamento da produção regional, sobretudo de borracha. Aprovado o Tratado por lei federal em 1904, o território do Acre passa a ser definitivamente brasileiro.



Terras brasileiras


Apesar de anexado ao Brasil, o Acre não teve sua independência econômica, pois sendo constituído como Território Federal, de todas os tributos arrecadados sobre a exportação de borracha e sobre a importação de mercadorias para abastecer os seringais, o governo federal mandava apenas uma pequena parte para a administração do Território.

Foram períodos difíceis, marcados pela completa decadência econômica provocada pela queda dos preços internacionais da borracha graças à produção infinitamente mais barata dos seringais de cultivo asiáticos (mudas foram contrabandeadas do Brasil e plantadas de forma racional, gerando maior lucro). Toda a imensa riqueza acumulada durante os anos áureos da borracha amazônica havia sido drenada para os cofres federais relegando o Acre ao completo abandono oficial.

Em virtudes das necessidades e para substituir a borracha no comércio internacional, começam as primeiras experiências de manejo dos recursos florestais. Intensifica-se a colheita e exportação de castanha e cresce o comércio de couro de animais silvestre da fauna amazônica. No entanto, a Segunda Guerra Mundial, traz um novo período de prosperidade da borracha, durante três anos (1942-1945). A “Batalha da Borracha” atrai, novamente, milhares de famílias nordestinas para o Acre, repovoando e enriquecendo, mais uma vez, os seringais.

Após uma longa batalha legislativa, os acreanos conseguiram sua autonomia política e o Território foi transformado em Estado, tendo como capital a cidade de Rio Branco.

Início dos anos sessenta e os seringais acreanos ainda estavam em plena atividade apesar dos preços mais baixos da borracha no mercado externo. Entretanto, as conseqüências da Ditadura Militar para o Acre, como para boa parte da Amazônia brasileira, foram desastrosas.

Seringal Cachoeira - Xapuri

No início da década de 70 a meta do governo federal para o "progresso econômico” da região tinha o lema “integrar para não entregar”, estimulando uma nova ocupação da Amazônia, em nome da defesa da soberania brasileira. Grandes projetos mineradores, madeireiros e agropecuários receberam financiamentos internacionais e incentivos fiscais. Os novos imigrantes vinham do centro-sul do país atrás de terras fartas e baratas.

Estabelece-se uma nova política econômica com o objetivo de substituir o já decadente extrativismo da borracha. Muitos seringais faliram e foram vendidos por preço muito baixo e no seu lugar se instalou a agropecuária. Para a o novo "Eldorado Amazônico" se transferiram muitos empresários. Mas, junto com esses vieram também grileiros e especuladores.

Novos problemas surgem, o lado mais fraco, como sempre, sofre as consequências. A população tradicional da floresta; Índios, seringueiros, ribeirinhos e colonos viram suas terras sendo invadidas e devastadas.

A partir de 1975 o Povo da Floresta começou a se organizar e a desenvolver diferentes estratégias de resistência. Foram fundados os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais. Mas, a luta não foi fácil e muito menos rápida.


É nessa época, quando pouco se falava em preservação ambiental, que surge Chico Mendes propondo o Empate. O reconhecimento mundial do ecologista desencadeou o que já se previa. Conflitos foram se tornando cada vez mais intensos e perigosos, levando à morte de muitos, culminando com a de Chico Mendes, em 1988.

O Movimento Ambientalista transformou o seringueiro morto numa figura pública conhecida e reconhecida em todo o mundo por sua luta em defesa da floresta e de seus povos. Criou-se uma enorme pressão sobre os organismos financeiros internacionais, obrigado-os a rever critérios de investimento na Amazônia.


E foi assim a história dos acreanos, sempre obrigados a lutar até a morte para defender seu modo de vida, seu território e seu direito à cidadania. Foi o Estado que brigou para ser brasileiro.

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