Escritos no Amazonas




Voltei no tempo...10 anos atrás. Nessa época algumas mudanças aconteciam em minha vida. Mas se alguém me dissesse que ainda iria trabalhar no Amazonas, eu  diria ser improvável. Mas a verdade é que fui...Não de imediato, uns 5 anos depois, mas  fui e trabalhei por 4 anos e 2 meses. Agora já estou de volta e resolvi catalogar alguns escritos soltos de quando por lá estive... São os Escritos no Amazonas.

 24/08/2015, em Recife





...Com o objetivo de registrar as minhas impressões sobre o que vejo, sinto e aprendo enquanto aqui me encontro e de alguma forma deixar registrado um pouco de tudo isso, resolvi relatar as minhas andanças pelo sul do Amazonas nesses pequenos fragmentos.




24/10/2010  - Como Tudo Começou

Tarde nublada de domingo e me encontro há quatro dias na região da bela e grandiosa floresta tropical, a Amazônia. Apesar do convidativo apelo a uma aventura pela exuberante biodiversidade, não me encontro aqui com este objetivo.

Esta história teve início há seis meses, quando pela internet, ainda em Recife, soube que estava havendo inscrição para um processo seletivo de médicos especialistas, dentre eles pediatras, a serem lotados em Manaus e diversas cidades do interior do Amazonas. Em princípio a remuneração me chamou a atenção, apesar de que seria uma ótima oportunidade para um trabalho em ambiente adverso, afinal o que mais se houve quando se fala em saúde na região Norte, especialmente no Amazonas é que as doenças tropicais (malária, febre amarela, leishmaniose, etc) são as mazelas que já causaram e ainda causam muitas vítimas. Porém, perdera o prazo, aquele tinha sido o último dia. Mas, no seguinte, as inscrições foram prorrogadas. Até hoje não sei qual foi o motivo, o fato é que dessa vez seria possível faze-la pela internet e enviar a documentação exigida por sedex. E foi o que fiz.

A proposta financeira para Manaus nem de longe se comparava com a que era oferecida para as cidades mais distantes no interior do Amazonas. Com o inseparável mapa do Guia Quatro Rodas na mão, ao fazer a inscrição fui triando quais as localidades onde havia vaga para pediatra. De todas as possibilidades existentes, a que tinha uma melhor localização, pois era a única que também tinha acesso por via terrestre, foi Humaitá. Além do fato de ser próxima a Porto Velho, capital rondonense de onde há acesso ao centro sul do país.
Chegando em Porto Velho

Inscrição feita, resolvi ir conhecer a região. E assim, enquanto aguardava o resultado, viajei pelo Norte do país, onde conheci três capitais: Porto Velho, Manaus e Belém. Desta última segui para o Maranhão, visitando São Luís e os Lençóis Maranhenses.

Porém, não seria aquela a única vez que pisaria no solo amazônico. Saiu o resultado e no final do mês de junho, de volta ao trabalho em Recife e em meio à dúvida se aceitaria o convite para assumir uma das Coordenações do SUS Estadual da SES/PE, soube que fora a escolhida para assumir a vaga de pediatra em Humaitá.

Cinco meses se passaram. E num dia qualquer vi no site da SUSAM,  a minha convocação, e eu teria que me apresentar no prazo máximo de 48 horas com toda a documentação, caso contrário seria considerada definitivamente desistente da vaga.

Não preciso dizer o tumulto que foram as próximas 24 horas. Conseguir voos para chegar em tempo hábil a Manaus e se teria que assumir o trabalho de imediato, apesar de precisar ainda do laudo da junta médica, foram as preocupações daquela madrugada. Estranhamente não forneceram a informação, quando da inscrição, sobre os exames complementares que se faziam necessários. E como não sabia quais seriam eles, cheguei lá sem nenhum. Porém, foi-me dado o tempo oficial de um mês para que os providenciasse e retornasse para assinar o contrato. Apenas o laudo de sanidade física e mental foi exigido de médico da rede pública do Amazonas, o que prontamente consegui com a gentileza de uma plantonista do serviço de psiquiatria do Estado. Tudo conspirava a favor e lá fui eu...


 Viajando para Humaitá

Ao comprar a passagem para Manaus, resolvi que aquela seria a ocasião para ir até Humaitá, como titular da vaga de pediatra. E assim o fiz. De Manaus, segui para Porto Velho, num voo da TRIP e após uma longínqua madrugada aguardando no aeroporto, dirigi-me, após um saboroso café com leite e sanduíche de queijo, para a rodoviária, de onde às sete horas da manhã partiria com destino ao interior do Amazonas, não antes de me surpreender com a fumaça das queimadas que tomou conta do aeroporto e de toda a capital de Rondônia, deixando o céu avermelhado e o sol como uma verdadeira bola de fogo. Foi a primeira das inúmeras vezes que me deparei com as queimadas na região da Floresta Amazônica.


Embarcando na balsa para a travessia do Rio Madeira. Não tinha sido iniciada a construção da ponte. 

Atravessando o Rio Madeira



Final da travessia

Esta seria uma das inúmeras vezes que teria um contato mais próximo com a exuberante floresta tropical, com a surpreendente forma de se tomar refrigerante no saquinho plástico e com o inusitado banheiro da única lanchonete da BR-319. Esta, aliás, recentemente recuperada.

E assim, na manhã posterior a minha chegada, conheci o hospital e alguns funcionários com quem iria trabalhar. Voltei ao hospital para uma reunião no dia seguinte. De lá fui levada a conhecer três postos de saúde, locais em que prestaria atendimento se resolvesse mesmo ir trabalhar por lá. Aproveitei para ver o porto da cidade recentemente inaugurado.
Final da tarde, o taxi chegou para me levar até o pequeno aeroporto da cidade, de onde embarcaria para Manaus e de lá para Recife, com conexão em Fortaleza. Mas, não foi isso que aconteceu, o voo da TRIP estava atrasado e se não aterrissasse antes de anoitecer, não mais o faria naquele dia. E assim, às dezoito horas e trinta minutos ficamos a ver navios, neste caso o avião, que passou sobre nossas cabeças direto para Manaus.
BR-319

Começava a minha angustiante situação naquele sábado, véspera de eleição para presidente da república. Somente às vinte uma horas e após várias tentativas para que a companhia tentasse uma permuta na minha passagem de Manaus, o agente da TRIP concordou em pagar um taxi para me levar até o aeroporto de Porto Velho, onde tentaria trocar minha passagem da GOL de Manaus a Recife por outra que saísse daquela cidade.

Duas horas e quarenta minutos após e uma estressante espera para a travessia de balsa no Rio Madeira, cheguei ao aeroporto e consegui fazer a troca da passagem, não sem antes ter que desembolsar R$ 155,00. Eu nem imaginava que aquela seria a primeira das inúmeras viagens que fiz nesse percurso e se não foram todas estressantes, com certeza foram todas um teste de paciência em salas de embarque, aguardando as intermináveis horas de conexão por muitos aeroportos do Brasil. Perdi a conta do número de aviões que utilizei nesses anos. Houve dias de utilizar quatro aeronaves para chegar ao meu destino.

Mas voltando àquela viagem...Sob o efeito do “santo dramin”dormi quase toda o percurso de Porto Velho à Brasília e, após um cafezinho com pão de queijo, resolvi fazer a justificativa de não votar por estar longe do domicílio ali mesmo, no aeroporto, enquanto aguardava o meu voo de volta a Recife.

As duas semanas seguintes foram para providenciar exames, documentos e minha licença dos trabalhos em Pernambuco.


Apontamentos....


A Presidenta...



Hoje acordei mais tarde e fiquei toda a manhã "largateando" no frescor do ar refrigerado do meu quarto no hotel Macedônia. Do lado de fora o sol aquecia mais um dia amazonense e os ânimos dos políticos e seus seguidores. Para muitos seria um dia especial: dia de eleição de Presidente da República do Brasil, que pela primeira vez poderia ser uma mulher! 
Há pelo menos 8 anos que esse evento nacional não me desperta interesse e como estou pela segunda vez, nessa eleição, fora de meu domicílio eleitoral, não participarei da vitória de qualquer um dos dois candidatos.
                Humaitá , 31/10/2010 



Os 3 Fusos horários, cruzando o Brasil

Há 2 dias retornei do Recife em uma viagem longa e cansativa, apesar da quase totalidade dela ter sido feita de avião. O fato é que para chegar aqui, precisei cruzar boa parte do país num verdadeiro zigue-zague. Isto porque saí do Recife com destino a Brasília no primeiro avião e neste trajeto já fui perdendo uma hora do meu segundo dia do ano, que me foi plenamente recompensado com o trajeto seguido pelo segundo avião. Este, com destino a Manaus, durante o percurso foi-me devolvida a hora perdida e de quebra ganhei mais uma.     04/01/2011




Lembranças de Momentos Distantes


No relógio do notebook já se passavam cinco minutos das 20 horas do terceiro sábado por aqui. Mas, nas terras amazônicas estávamos 2 horas antes, portanto ainda era o início de uma noite de temperatura amena, chovera bastante pela manhã. Não foi o horário de verão que me fez lembrar longínquos momentos da minha infância, nem tampouco o que estava fazendo naquele momento e sim, o canto que uma cigarra começou a entoar do lado de fora da janela do quarto do hotel.





Calçadas, Urubus, Manas e Bicicletas


Rua sempre foi para mim o lugar para o tráfego de veículos, para o pedestre, categoria a qual pertenço, sobram as calçadas. É, verdade seria se calçada aqui existisse. O espaço, quando há, está tomado por grama ou barro, quando não, lama, nos dias de chuva. Ainda não descobri se calçadas inexistem porque a população não as veem como o espaço mais adequado para sua locomoção, se andam pelo meio da rua porque elas não existem ou se o motivo é por não gostarem mesmo de caminhar.






Por que Humaitá?



Fundada em 15 de maio de 1869 pelo comendador português José Francisco Monteiro, no final do século 19, destacou-se como grande produtora de borracha e prosperou nas mãos dos seringalistas que ostentavam suas riquezas. Por outro lado, em condições bem diversas, vivia o seringueiro. Geralmente nordestino fugindo da seca, vinha em busca de riqueza, mas só encontrou a semiescravidão como forma de trabalho nos seringais. Impedidos de voltar para sua terra, pois já chegavam endividados, acabaram ocupando terras ribeirinhas

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