A Presidenta...



Hoje acordei mais tarde e fiquei toda a manhã "largateando" no frescor do ar refrigerado do meu quarto no hotel Macedônia. Do lado de fora o sol aquecia mais um dia amazonense e os ânimos dos políticos e seus seguidores. Para muitos seria um dia especial: dia de eleição de Presidente da República do Brasil, que pela primeira vez poderia ser uma mulher! 
Há pelo menos 8 anos que esse evento nacional não me desperta interesse e como estou pela segunda vez, nessa eleição, fora de meu domicílio eleitoral, não participarei da vitória de qualquer um dos dois candidatos.
                Humaitá , 31/10/2010 




 Mas, é necessária a minha justificativa pára isso.

Assim, após o almoço, saio pelo portão de trás do hotel, que se abre para a rua 05 de Setembro, e já me deparo com o muro da Universidade onde existem sessões de votação. De sombrinha na mão atravessei a calçada da Praça da Saúde e entrei. Não havia qualquer pessoa votando e rapidamente cumpri com a minha "obrigação" de cidadã.


Saí de lá e me pus a fazer um resgate de minhas memórias, desde a primeira vez que votei. E lá se vão 28 anos. Nooossaaa!

... Era 1982, época de faculdade e início do processo democrático. Afinal seriam as primeiras eleições para governador após os anos sombrios da ditadura militar. A euforia para eleger um candidato do partido oposicionista era tamanha que nem me importei em sair do Recife e viajar a Garanhuns para depositar meu voto na urna, que ainda se dava pela escolha com um "X" e escrevendo os números dos candidatos em um papel. Mas, não logramos êxito e essa euforia seria adiada para quatro anos depois, quando Miguel Arraes foi eleito após retornar do exílio político.

... O tempo passou, chegou o ano de 1989 e foi o momento de se eleger o primeiro presidente por voto direto após o governo militar, já que a eleição de 1984 tinha sido de forma indireta, onde o Congresso elegeu Tancredo Neves, que veio a falecer antes da posse e quem assumiu foi o seu vice, José Sarney, que permaneceu por cinco anos.

... A disputa em 1989, no segundo turno, tinha como base a ideologia de cunho socialista do ex metalúrgico e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) Luis Inácio Lula da Silva e de Fernando Collor de Mello, que se apresentava como neoliberal e pelo incansável combate aos marajás de Alagoas. Foi a época da torcida pela vitória dos ideais de justiça, igualdade e honestidade defendidos pelo candidato da "esquerda" como se denominava na época. Porém, ainda não seria a sua vez. Quer por manipulação das classes dominantes, quer pela falta de esclarecimento de parte da população ou por não ser aquele o momento, Lula não chegou lá!

... Dois anos se passaram e o país foi varrido por denúncias de corrupção generalizada, Collor foi defenestrado do poder pelo seu impeachment, cuja participação maciça da população brasileira, especialmente os jovens estudantes de caras pintadas, em mobilizações públicas de repúdio àquela situação foi de fundamental importância.

... Foi bonito de se ver, amplos espaços públicos em todo o país tomados por multidões, invariavelmente vestidas de preto pedindo a saída do então presidente. Mais emocionante ainda para mim, que me encontrava em Brasília, na ocasião do famoso ato público na Esplanada dos Ministérios. Tempos idos, quando eu ainda tinha alguma fé nas intenções de alguns políticos...

... Novamente é um vice presidente que assume o poder de governar. A inflação nas alturas e a economia em recessão teve no Plano Real, capitaneado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, o antídoto que tanto se almejava e também o pavimento do seu caminho à presidência em 1994, derrotando Lula no primeiro turno. Situação que se repetiu em 1998, quando da sua reeleição. Em nenhuma dessas ocasiões eu votei, não me encontrava em meu domicílio eleitoral, uma dela estava viajando pela Espanha e Portugal.

... Mudamos de milênio e finalmente o Brasil havia mudado. Estávamos em anos de moeda estável, de inflação controlada e amadurecimento político. O país se tornou penta-campeão na Copa do Mundo realizada no Japão e Coréia do Sul. Mas, Lula persistia e se candidata em 2002. Menos radical e com a política do "Lulinha paz e amor", domou a ala mais radical do PT, estabeleceu alianças anteriormente impensáveis com alguns grupos e ganhou a confiança da maioria dos brasileiros, chegando ao Planalto ao derrotar José Serra. Finalmente Lula tinha chegado lá! Eu torci pela sua vitória apesar de não ter votado, pois novamente me encontrava fora do domicílio eleitoral.

Porém, como "todos os políticos calçam 40", uma sucessão de escândalos do governo abalou o país, apesar de não ter sido suficiente para impedir a reeleição do petista no pleito de 2006 contra Geraldo Alckmin.

... Mas, para mim, estava definitivamente sepultado o meu interesse por quem quer que estivesse em disputa política.

... Volto ao presente, a tarde já se despedia e em mais algumas horas é anunciada a vitória da candidata indicada pelo presidente Lula. Pela primeira vez o Brasil, uma democracia consolidada, elege uma mulher como presidente da República, Dilma Rousseff.


Comentários