Por que Humaitá?



Fundada em 15 de maio de 1869 pelo comendador português José Francisco Monteiro, no final do século 19, destacou-se como grande produtora de borracha e prosperou nas mãos dos seringalistas que ostentavam suas riquezas. Por outro lado, em condições bem diversas, vivia o seringueiro. Geralmente nordestino fugindo da seca, vinha em busca de riqueza, mas só encontrou a semiescravidão como forma de trabalho nos seringais. Impedidos de voltar para sua terra, pois já chegavam endividados, acabaram ocupando terras ribeirinhas



Com o final do Ciclo da Borracha, toda a região amazônica sofre uma estagnação econômica e só volta a ter um sopro de prosperidade com a Segunda Guerra, quando houve a necessidade de se produzir borracha para os países aliados. Novamente são recrutados nordestinos: “os Soldados da Borracha”. Finda a guerra, os seringais voltaram a fechar e muitos perderam seus empregos. Sem condições de retornar, foram se adaptando às condições adversas, ocupando as margens dos rios e igarapés. Para mais informações sobre o Ciclo da Borracha(veja aqui).
Os índios, os primeiros a ocuparem a área, com a chegada do colonizador foram expulsos ou massacrados. Atualmente habitam na região os de várias etnias, como Tenharim, Parintintin, Mura, entre outros. Vivem em aldeias e conseguiram a demarcação de suas terras pela FUNAI, que foram transformadas em Reservas Indígenas. Todos esses se encontram adaptados aos usos e costumes locais. No entanto, existe nos arredores um grupo seminômade que ainda vive de forma primitiva, os Pirahãs. Estes apesar de terem contato com o branco, não falam o nosso idioma.

A cidade está localizada à margem esquerda do Rio Madeira, um dos afluentes do Rio Amazonas e no entroncamento das Rodovias BR 319 (Porto Velho-Manaus) e BR 230, a conhecida e intransitável Transamazônica. Abertas na década  de 70, durante a ditadura militar, tinham o objetivo de ligar a Amazônia às demais regiões do país. Quatro décadas após, apenas o trecho entre Porto Velho e Humaitá da BR 319 teve seu asfalto concluído há menos de um ano. O trecho até Manaus, cerca de 675 km, continua como uma verdadeira trilha para rali, principalmente na época das chuvas.
A principal avenida é a própria Transamazônica, que corta a cidade.

Com a abertura das estradas a partir da década de 70, nova leva de imigrantes, boa parte provenientes do Centro- Sul do Brasil, chega à cidade em busca de terras para plantio, pasto e garimpo. E desta forma se vê uma parcela da população com sobrenomes estrangeiros, provavelmente descendentes de imigrantes que chegaram ao sul do país. 
Garimpo no Rio Madeira

Apesar da recuperação dessas estradas ser uma possibilidade de novos rumos para o desenvolvimento da região, não depende apenas da ação governamental, pois há setores e organizações que defendem a preservação da natureza, evitando os impactos ambientais e se contrapõem a realização dessas obras. Uma eterna polêmica que tem os seus lados positivos e negativos de ambas as partes.
Hoje com uma população heterogênea e miscigenada, os 44 mil habitantes vivem da agricultura, da pesca artesanal, pecuária de bovinos, garimpo, beneficiamento de castanha, extração de madeira e movelaria.
Apesar de uma boa parcela trabalhar em alguns períodos do ano nos vários garimpos da região, eu nunca imaginei encontrar o fabrico de jóias por aqui. Pois é, bem perto da minha casa há duas joalharias, onde você mesmo pode fazer o "design" de sua joia. Lá quem manda é o freguês, só não no preço, que nem achei tão barato assim...
A cidade tem um pequeno porto que foi recentemente inaugurado e onde são atracadas embarcações que seguem para Porto Velho, comunidades ribeirinhas e Manaus. Essa Hidrovia é uma das mais importantes do país, por ela é escoada em balsas os grãos produzidos no Centro-Oeste e Rondônia em direção à Belém e de lá para o comércio exterior.
A população esta distribuída em treze bairros. Contudo o crescimento desordenado resultou em problemas sociais comuns a cidades que não estão preparadas para o aumento da população proveniente de outros locais. As condições de saneamento são precárias, falta moradia e não há transporte público. A energia é fornecida por uma usina termoelétrica, que a encarece substancialmente. As ruas principais são extensas e asfaltadas. Porém, encobertas pelo barro que as deixam permanentemente com tons alaranjados. Há alguns igarapés cortando a periferia da cidade, que na época das chuvas transbordam, alagando plantações e moradias.


Mas por que fui para lá?

Confesso que nunca tinha ouvido falar desta cidade, até me deparar com a informação sobre um processo seletivo para especialistas em pediatria a serem lotados em cidades do interior amazonense. Seria uma oportunidade para exercer uma atividade em um ambiente totalmente diferente do que estava acostumada a trabalhar, além da possibilidade de conhecer lugares e costumes de uma região que ainda é tão desconhecida para nós brasileiros, ao contrário do que ocorre para grande parte dos estrangeiros.

E assim trabalhei por mais de quatro anos, fazendo atendimentos ambulatoriais e, ocasionalmente, avaliando recém-nascidos e crianças internadas na enfermaria do hospital.
Foi uma experiência marcante!

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