Os 3 Fusos horários, cruzando o Brasil

Há 2 dias retornei do Recife em uma viagem longa e cansativa, apesar da quase totalidade dela ter sido feita de avião. O fato é que para chegar aqui, precisei cruzar boa parte do país num verdadeiro zigue-zague. Isto porque saí do Recife com destino a Brasília no primeiro avião e neste trajeto já fui perdendo uma hora do meu segundo dia do ano, que me foi plenamente recompensado com o trajeto seguido pelo segundo avião. Este, com destino a Manaus, durante o percurso foi-me devolvida a hora perdida e de quebra ganhei mais uma.     04/01/2011
Confuso? Explico...

De outubro a fevereiro o Brasil adota o horário de verão, adianta-se uma hora no fuso horário oficial. Esta medida não é acatada em todos os estados. Assim, o Nordeste e o Norte permanecem com seus horários oficiais. Como esta última região já tem uma hora a menos do horário de Brasília, é fácil entender porque, ao aterrissar em Manaus, estava quase na mesma hora em que deixei a capital do país, mesmo tendo atravessado boa parte do norte brasileiro em pouco mais de duas horas.

Assim, saí de Recife para Brasília às 05:10h e cheguei em Brasília às 9:00 h(horário de verão). O aeroporto estava muito movimentado, no dia anterior tinha sido a cerimônia de posse da primeira Presidente do Brasil. Às 10:21 partimos para Manaus, onde chegamos às 11:10h (horário local e 2:00 h a menos que Brasília).
 Fila de aviões, em Brasília

Mas, não findou em Manaus a minha travessia pelos “céus brasileiros”. Uma hora e meia após estava eu no terceiro avião do dia, agora com destino a Porto Velho/RO. Finalmente, uma hora após estava livre dos “biscoitos” servidos a bordo pelas comissárias da Gol. Vale ressaltar que a partir do segundo avião já declinei dessa iguaria.

E não foram só estas mudanças que enfrentei nessa viagem, a temperatura também variou bastante. Dos amenos 23º C de Recife, passei para 20ºC em Brasília, depois 28º C em Manaus, para finalizar nos tórridos 32ºC em Porto Velho.
Do aeroporto de Porto Velho segui de taxi para a rodoviária. Chegara o momento de decidir como faria a meu quarto e último trajeto. Não é preciso dizer que o cansaço falou mais alto e preferi pagar uma corrida até Humaitá a esperar que uma lotação fosse completada ou escolher para ir de ônibus, que sairia duas horas após e seria no bom estilo “pinga-pinga”.

Acertado o preço, o motorista pegou minha mala e seguiu para fora da rodoviária. No primeiro momento fiquei apreensiva, pois passamos pelo ponto do taxi e ele não parou. Perguntei se era credenciado e respondendo-me que sim, mostrou-me o seu taxi. Ao ver a placa de Humaitá, compreendi de onde ele era e que provavelmente estava em Porto Velho porque fora deixar alguém e aguardava passageiros para retornar.

Ao contrário da última vez, desta precisamos esperar um pouco para embarcar na balsa. O calor era sufocante e rapidamente a água gelada da minha garrafinha ficou na temperatura ambiente.
Travessia feita, liga-se o ar condicionado e seguimos em frente. Apesar da BR 319 não ter um grande tráfego, naquela tarde de domingo encontramos com muitos carros regressando do feriadão de ano novo.

Como das outras vezes, este percurso teve a sua singularidade. Desta vez eu tinha como motorista um evangélico estudioso da Bíblia e não é difícil imaginar qual foi o tema que se desenvolveu em quase todo o trajeto. 

Ouvi que Eva foi feita a partir da costela de Adão e que o sopro divino no nariz (gesticulava demonstrando como) deu a vida ao homem. Falou que o pecado se dava quando o ser humano passava a adorar imagens e não a Deus e que as mazelas dos nordestinos era castigo por cultuarem tantos santos. 

Neste momento, contei-lhe sobre a história do Padre Cícero que tinha tomado conhecimento ao viajar à Juazeiro do Norte, um ano atrás. E ele se referiu, condenando, ao hábito comum da população amazonense procurar as práticas de “rezadores” em detrimento dos cuidados médicos.
Assim, mais uma vez, a monotonia ficou longe da meu cansativo retorno às terras amazônicas.

30/07/2011    Chão de Estrelas                             


Das rotas aéreas que já fiz para ir de Porto Velho a Recife a que mais gosto de fazer, apesar de ter que embarcar em 3 aviões, é a que faz a primeira conexão em Cuiabá. O avião sai de Porto Velho próximo das 4 horas da tarde e a primeira visão que se tem é da cidade que vem se transformando nos últimos tempos. De uma cidade esparramada, praticamente sem prédios, hoje já se vê uma grande quantidade de edifícios sendo construídos, resultado da explosão imobiliária que nos últimos dois anos tomou conta da capital rondoniense. Afinal, Porto Velho é uma das cidades brasileiras que mais cresce verticalmente.
Do alto também se vê uma das grandes obras de engenharia que está modificando essa parte da Amazônia. A ponte sobre o Rio Madeira, localizada no início da estrada que liga Porto Velho a Manaus e que livrará os usuários da BR 319 da travessia desse rio por balsa. 
Mais adiante, da janelinha do lado direito do avião, avisto a construção de uma das duas hidrelétricas que tem sido responsável pelas mudanças na cidade: A Hidrelétrica Santo Antonio. A outra é a Hidrelétrica de Jirau, mas não está localizada no município.
Continuamos subindo e a imagem vai se modificando. O verde das copas das grandes árvores ocupa o espaço abaixo da minha janela. Mas, as grossas camadas de fumaça que vejo ao longe não escondem uma das práticas corriqueiras nessa região, as queimadas.
A próxima hora de viagem o verde entrecortado pelos rios é substituído cada vez mais por áreas desmatadas, estamos nos aproximando do Mato Grosso. Mas, é a visão das sinuosas e elevadas dobras da crosta terrestre que tanto me encanta na etapa final dessa primeira conexão: serras a perder de vista, paredões estupendos se descortinam na minha janelinha, é a Chapada!
Essa é a terceira vez que visualizo essa diversidade de imagens em uma hora e meia de viagem: a exuberância da Floresta Amazônica, a força dominadora da tecnologia humana e a prática insana e devastadora das queimadas e dos desmatamentos.

Mas, a imagem que não se repetiu nas duas ultimas vezes e que ficou registrada como um dos momentos mais bonitos desse trajeto na primeira vez que o realizei, foi o inicio da aterrissagem em Cuiabá com a visão de um esplendido por do sol. Pois, a medida que o avião perdia altura, rapidamente o astro rei ia desaparecendo atras das montanhas, como se realmente estivesse a sair de cena para deixar que a noite chegasse refrescando um pouco aquela que é considerada a capital mais quente do país.

A troca de aeronave é rápida, não chegamos a ficar mais que uma hora na sala de embarque. E logo já me encontro a bordo e ao lado de outra janelinha. Dessa vez o destino é Brasília, onde farei a terceira conexão do trajeto.

Agora já caiu a noite e o manto escuro do céu se confunde com o tapete escuro da terra. O olhar para baixo não distingue nada. São longos trechos de um preto total. Mais alguns minutos se passam e, aos poucos, surgem luzes piscando aqui, ali, acolá. São os sinais iniciais de que estamos nos aproximando de terras cada vez mais habitadas. Ficou para trás a exuberante Floresta amazônica.

As luzes são cada vez mais frequentes, diversos agrupamentos delas formam interessantes desenhos das pequenas e grandes cidades que iluminam. Outras, estão isoladas, cintilando. A sensação é fantástica! Vejo um céu estrelado que se confunde com um “chão de estrelas” .
                                ***




Finalizando...

Foram muitas viagens, perdi a conta de quantos aviões utilizei nesses anos em que trabalhei no Amazonas, com certeza próximo de 300 aeronaves, entre ir e vir do Recife para lá. TAM, Gol, Trip, Azul e MAP, as empresas utilizadas. 

Foram tantas escalas e conexões...Vi as reformas e ampliações dos aeroportos de Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Cuiabá, Fortaleza, Porto Velho e Manaus, pois eram tempos pré-Copa do Mundo. Mas veio o Mundial de Futebol e alguns deles ficaram por terminar...coisas do Brasil...

Algumas vezes segui de avião (Trip/Azul) de Porto Velho ou Manaus até Humaitá, mas no último ano o pequeno e precário aeroporto, ou melhor, campo de pouso, foi fechado para reformas. Então a opção era fazer o trajeto a partir de Porto Velho, atravessando a balsa, ainda na capital de Rondônia, para seguir os 180 km da BR 319. Geralmente contratava um taxista para ir e vir de Humaitá até o aeroporto. Mas também utilizei o ônibus nesse percurso. 


Com a cheia do Rio Madeira em 2014, foram suspensos os transportes de carros e até ônibus na altura da travessia da balsa. Pista inundada, a solução foi colocar o carro sobre um caminhão guincho e atravessar até onde não tivesse mais perigo.

A ligação por terra com Manaus era impraticável, pois a estrada (continuação da BR 319) que liga a capital amazonense ao sul do estado e Porto Velho é precária, ninguém se arrisca a transitar, habitualmente. Essa era outra promessa para ficar pronta na época da Copa do Mundo e que não se cumpriu. 

Agora, sem a opção aérea, quem quiser ir de Humaitá para a capital, Manaus, tem que amargar 4 a 5 dias de barco pelo Rio Madeira ou viajar até o estado vizinho para  embarcar de Porto Velho e chegar com uma hora de voo. 

Não é simples... E para mim, bem mais complicado, porque era apenas o início da viagem, quando saía de Humaitá me dirigindo para Recife ou a terceira etapa, quando retornava. Mas, tudo pela aventura....

Um dos dois postos de fiscalização que existem na BR 319. Pois é, essa estrada sai duas vezes do estado de Amazonas e entra duas vezes em Rondônia, até chegar em Porto Velho.

"Sou o que fiz de mim e serei o que de mim fizer. São as nossas escolhas que direcionam o nosso caminho e nos conferem autoridade sobre o nosso destino"

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