Calçadas, Urubus, Manas e Bicicletas


Rua sempre foi para mim o lugar para o tráfego de veículos, para o pedestre, categoria a qual pertenço, sobram as calçadas. É, verdade seria se calçada aqui existisse. O espaço, quando há, está tomado por grama ou barro, quando não, lama, nos dias de chuva. Ainda não descobri se calçadas inexistem porque a população não as veem como o espaço mais adequado para sua locomoção, se andam pelo meio da rua porque elas não existem ou se o motivo é por não gostarem mesmo de caminhar.

O fato é que apos diversas tentativas em só andar nas “calçadas” e em muitas delas ter meus pés atolados na lama, resolvi que o melhor seria fazer como todos aqui: optar pela rua como via de locomoção e ir driblando os carros, motos e bicicletas.
Confesso, sinto falta de calçadas. Pois é, aqui me tornei uma pedestre de carteirinha. Sempre retorno a pé dos postos de saúde mais próximos, desde que não esteja chovendo. A ida não é possível, pois o sol é inclemente, já que o primeiro turno se inicia às 14 horas. Porém, fico apreensiva por ter que, na maioria das vezes, usar a rua como via de locomoção.  Para evitar sustos, sempre pego a faixa contrária ao trânsito dos carros e motos, assim vejo quem se aproxima e em qual velocidade, permitindo-me alguma ação, caso algum engraçadinho me queira “tirar um fino”.
 Rodoviária

Aliás, as ruas são um capítulo à parte no que se refere às regras de trânsito, especialmente no transporte em motos e bicicletas. Nem de longe poderia imaginar o que ocorre por essas bandas. Todos deveriam obedecer às regras de segurança, certo? Afinal, a lei é igual para todos

Porém, o que dizer de uma moto transportando ao mesmo tempo dois adultos e duas crianças, sendo uma delas tão pequena, que nem capacete apropriado deve existir? e mesmo se existisse seria usado? Pois o que mais se vê é o desprezo pelo uso desse equipamento tão importante para a prevenção de acidentes. Além do que, crianças de todas as idades são carregadas para cima e para baixo. Creio que os pequenos devem aprender a caminhar ao mesmo tempo em que aprendem a se equilibrar nas garupas das motos e bicicletas.
No início me espantava com tamanha irresponsabilidade no trânsito, mas de tão corriqueiro acabamos nos tornando indiferente a esse absurdo. Afinal, nem mesmo aos órgão responsáveis para coibir essas infrações parece incomodar... Resta rezar para que nada aconteça.
Apesar de estarmos no meio de uma selva, todos os animais que vi até agora são os mesmos que se vê em qualquer uma cidade, exceto no que se refere à categoria dos insetos. Aqui são de todos os tipos e tamanhos, o que me obriga a manter as janelas permanentemente fechadas, enquanto não colocar telas em todas elas. A nossa muriçoca tem outro nome, chama-se carapanã. Mas, o que mais me chamou a atenção foi a enorme quantidade de urubus! Nunca vi tantos e de tão perto passeando tranquilamente como qualquer transeunte ao longo das ruas. E, provavelmente se deve a eles o trabalho de dar sumiço a uma parte do lixo doméstico depositado nas lixeiras das calçadas, já que é uma ave importante na limpeza do meio ambiente.
Aqui os urubus são figurinhas assíduas nas minhas caminhadas. E como uma imagem vale mais do que palavras, eles me trazem lembranças de tempos idos da infância, ainda em Águas Belas, interior de Pernambuco. Como um filme eu me lembro de dezenas pousando nos fios de alta tensão, no final da tarde, para o descanso da noite.  E, não raro, eram os acusados de provocar circuitos na rede elétrica, deixando-nos horas sem energia. Mas, fazia tanto tempo que não me deparava com essas aves, que jamais imaginei de um dia voltar a essa convivência.
Na minha região é comum, quando em um bate papo informal, soltarmos pérolas como: “mulher ou mulé” ao nos comunicarmos com alguém do sexo feminino. Aqui, o termo é bem mais delicado e agradável. Para aquelas chamam “mana”. Diversidade regional é isso aí.
Como não há transporte público, para quem não tem dindim ou idade suficiente a solução é usar a bicicleta para as longas distâncias. Daí o estacionamento específico na frente de lojas, bancos, hospitais e postos de saúde. De todos os lugares e lugarejos por onde andei nesse Brasil a fora, aqui foi a cidade onde mais vi o uso desse meio de transporte. De crianças a adultos, até mesmo embaixo do sol forte, o uso da bike é unanimidade. Haja bicicletaria e viva a vida saudável!

Vivi para ver! Pois é, dois anos depois de ter chegado em Humaitá, houve progressos. Muitas ruas receberam calçadas. E a prova disso está aqui.
                   2011                                                                                                 2013

Comentários